MST aprova saques em grandes centros
Líder sem-terra admite, em Pernambuco, que o movimento pode vir a apoiar saques não motivados pela seca
Agência Estado
France PresseDesesperoPara o MST, a fome e a miséria nas periferias das cidades é que estão levando a um número maior de saquesO Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST-PE) não tem limites de atuação, nem por regiões nem pela luta pela terra. A direção estadual é unânime: faz parte da luta ser solidária com os que passam fome e miséria nas periferias das cidades. O coordenador do MST-PE, Jaime Amorim, não descarta a possibilidade até de ajudar em saques a grandes supermercados de grandes cidades.
‘‘Tudo depende da necessidade do povo’’, afirma, reiterando que se o governo federal desse assistência aos excluídos não haveria esse tipo de mobilização. ‘‘A gente não teme o que esse avanço da nossa atuação possa acarretar’’, disse um dos diretores do MST-PE, Edílson Barbosa de Lima.
Nesse contexto, a organização de saques, pelo MST-PE, na Zona da Mata do Estado não é motivada pela seca, ‘‘mas para denunciar a situação de miséria e desamparo’’ em que vive uma população basicamente dependente da indústria sucroalcooleira, que se encontra em decadência, de acordo com Arley Castro, militante gaúcho que faz ‘‘estágio’’ em Pernambuco.
Nos últimos dez anos, cerca de 150 mil canavieiros ficaram desempregados. De 40 usinas existentes na década de 60, sobraram apenas quatro com autonomia. A Zona da Mata concentra altos índices de mortalidade infantil - 92,3 na Mata Norte (a mais alta do Estado) e 67,4 na Mata Sul - e a taxa de analfabetismo a partir dos 15 anos é de 46% (censo de 1991).
Esse quadro facilita a ação do MST que, segundo Arley, nem precisa convencer as pessoas. ‘‘Quando a gente visita as favelas as pessoas estão prontas para agir, pedem a nossa ajuda’’, afirma. Foi assim que ocorreu na Favela Firmeza, que decidiu bloquear a estrada e saquear caminhões na segunda-feira, em Escada, a 55 quilômetros do Recife.
Maria José Batista da Silva, 24 anos, dois filhos, já havia chamado a comunidade - cerca de 200 famílias sem emprego e que passa fome - para fazer um saque. Morando num barraco coberto com uma lona velha e furada, ela já dormiu sentada dentro do guarda-roupa, com as crianças, para não se molhar. ‘‘Eu nunca tinha pensado nisso, mas quando vi o povo do sertão levando comida para casa depois de sequestrar caminhão, tive a idéia’’, contou. ‘‘Falei com o povo e todo mundo topou.’’ Numa visita de um grupo jovem do MST, ela pediu colaboração. Na hora combinada para o saque, porém, a maioria não apareceu. ‘‘Eles têm medo da polícia.’’ Mesmo assim, o grupo conseguiu cestas básicas com a prefeitura.

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