Paris, 18 (AE) - A associação Médecins sans Frontires (MSF) celebra a obtenção do prêmio Nobel da Paz, recebido na sexta-feira, com um golpe espetacular. A associação organizou, juntamente com a OMS, um encontro para denunciar o desinteresse dos grandes laboratórios farmacêuticos pelas doenças dos países pobres.
O Terceiro Mundo é assolado por doenças comuns aos homens do mundo todo, mas também por doenças específicas das zonas tropicais (paludismo, doença do sono, etc.) todas igualmente mal cuidadas. As indústrias farmacêuticas ignoram friamente esta calamidade: das 1.200 novas drogas comercializadas entre 1975 e 1997, apenas 11 eram destinadas às doenças tropicais (e, ainda, quatro destas 11 derivaram da pesquisa veterinária).
Médecins sans Frontires desvenda sem piedade o motivo destes desequilíbrios: Porque investir para criar medicamentos para os pobres? Como a pesquisa de ponta seria reembolsada por seus gastos se só fizesse remédios para os mendigos? Os laboratórios preferem manter exércitos de cientistas encarregados de descobrir tranquilizantes, remédios contra a impotência, etc. E também contra a obesidade, um flagelo que não tem nada a ver com as crianças de Níger ou de Ruanda ( deixando de lado "as barrigas inchadas" provocadas pela miséria).
O relatório de MSF é desolador: 80% do Planeta estão privados de medicamentos essenciais. Pior ainda: como as drogas eficientes têm preços elevados, os países emergentes não têm acesso a elas e só recebem medicamentos antigos, criados há trinta anos e já ineficazes, ou mesmo medicamentos inativos. Um exemplo: em 1995, foi realizada em Níger uma campanha de vacinação contra a meningite. Noventa mil pessoas foram vacinadas, mas as vacinas estavam destituídas de qualquer princípio ativo. Reultado: terríveis consequências para as crianças vacinadas.
Três grandes flagelos assolam os países pobres tropicais: tuberculose, paludismo e doença do sono. A primeira resiste aos medicamentos do período pós-Guerra. O paludismo é muito negligenciado.
A doença do sono, da áfrica Negra, depois de dar a impressão de ter desaparecido, está de novo atacando. É uma doença mortal, se não for tratada. Ora, a áfrica possui apenas um medicamento , descoberto há 60 anos, o melarsoprol, doloroso e sujeito a efeitos colaterais fatais (como a encefalite).
Existe sim outro produto, não-tóxico e eficaz, a eflornitina, mas muito mais cara e que os laboratórios ocidentais nem mesmo chegam a comercializar. Foram necessários três anos de esforços por parte de pessoas benévolas para que a patente em poder da Hoechst Marion Roussel fosse cedida a um laboratório do Texas, que aceitou fabricar este medicamento, mas com a condição de que fosse comprado e pago antecipadamente. É claro que os países miseráveis da áfrica Negra não podiam fazer essa promessa à empres texana. Felizmente, a Fundação Bill Gates
alertada sobre isso, encontrará sem dúvida os 200 mil dólares necessários.
Mas a organização MSF , sem esquecer a contribuição generosa de entidades privadas , fez votos para que sejam criados dispositivos institucionais a fim de obrigar o mundo desenvolvido a conter este massacre farmacêutico.
Já existem na Europa sistemas para possibilitar a produção de drogas destinadas a doenças raríssimas e, portanto, não rentáveis (as "doenças orfãs"). Este exemplo não poderia inspirar a organização da produção de medicamentos "indigentes" para os países pobre do Sul?
Segundo a MSF, bastaria levantar uma porcentagem mínima sobre os medicamentos dos países ricos para alimentar a pesquisa e a produção de remédios para as doenças dos pobres.

mockup