MPF suspeita de ligação de empresário do Rio com Cartel de Medellín
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domingo, 21 de novembro de 1999
Por J. Paulo da Silva 
Rio, 21 (AE) - O Ministério Público começa nesta semana a apertar o cerco ao empresário carioca Henrique Vale, proprietário de uma fazenda em Angra dos Reis, no litoral sul do RJ, na qual há três pistas de pouso clandestinas. De acordo com a Polícia Federal elas teriam sido usadas pelo Cartel de Medellín por meio de Evandro José dos Passos Júnior, primo do traficante Luiz Fernando da Costa, o Fernando Beira-Mar, alvo da CPI do Narcotráfico.
Denunciado pela morte do empresário Mário Toledo, Vale é suspeito de ser um dos homens -fortes do crime organizado no Rio
com ramificações em outros Estados e na Colômbia. O Ministério Público quer analisar o depoimento do traficante Aryzoli Trindade Sobrinho, prestado à CPI , em Campinas (SP), por considerar que pode haver ligação de Henrique Vale com o empresário paulista Willian Sozza. Sobrinho informou aos deputados que Sozza e seu advogado Artur Eugênio Mathias, que está preso, são ligados a Beira-Mar. O traficante carioca estaria ainda escondendo Sozza, em Capitán Bado, no Paraguai.
"Vou pedir aos deputados da CPI do Narcotráfico os depoimentos de Campinas", disse hoje o procurador-geral de Justiça do Rio, José Muiños Piñeiro Filho. "Tem muita coisa que diz respeito ao Rio." Piñero também deve analisar amanhã (22) uma fita cassete na qual foi gravada uma conversa, de duas horas
entre Beira-Mar e a promotora Márcia Velasco, da Central de Inquéritos de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense. O traficante, que teria se comunicado através de um sofisticado sistema de rádio, já que não foi possível descobrir a origem da ligação, fez novas revelações e garantiu que tem proteção de uma personalidade influente.
Na conversa Beira-Mar confessou que sua ex-mulher Alda Inês trabalha para o seu grupo, mas inocentou os demais parentes. O traficante disse que quer provar que sua família não tem envolvimento com os seus negócios e voltou a reclamar que tem sido vítima de extorsão. Relaciona os policiais que o extorquiram e não cumpriram o acordo que fizeram com ele, mas preserva os que na sua avaliação foram corretos."É incrível, mesmo os policiais que o extorquiram ele pretende preservar porque de alguma forma foram corretos com ele", comentou Piñeiro.
Novidades - O cerco a Henrique do Vale deve-se, entre outras coisas, ao fato de que, a cada dia, surge um novo elemento que relaciona o empresário com o crime organizado. Durante vários dias agentes da Polícia Federal estiveram na fazenda de Vale. Os policiais federais tinham informações de que lá chegaria uma grande quantidade de cocaína que seria trazida da Colômbia. A droga seria entregue à quadrilha de Beira-Mar para ser distribuída no Rio e em outros Estados. A operação policial, entretanto, foi descoberta pelos traficantes, que abortaram o plano.
Vale é proprietário de pedreiras e trabalha no ramo da construção civil para algumas empreiteiras, em Angra dos Reis. Mas as suspeitas da polícia é a de que ele utilize esses negócios para lavar o dinheiro do tráfico. "Certamente a CPI vai querer ouvi-lo", disse Piñeiro.
O Ministério Público quer ouvir também o delegado Otávio Seiler sobre a operação de compra e venda de um imóvel na Rua Jornalista Henrique Cordeiro, 160 apartamento 207, na Barra da Tijuca, sofisticado bairro da zona oeste do Rio. O apartamento foi entregue pela construtora Sersan ao delegado. Mais tarde, o imóvel foi transferido para Alessandra Costa, irmã de Beira-Mar, onde, durante muito tempo, o traficante viveu.
De acordo com as investigações, Beira-Mar teria usado o apartamento como moeda de troca. Ele teria passado o imóvel para o advogado Heraldo de Almeida Teixeira e em troca a sua irmã - que havia sido presa - seria libertada. Segundo Beira-Mar, o advogado Heraldo seria ligado ao detetive Carlos Macedo. O policial é um dos denunciados pelo Minstério Público por envolvimento com o crime organizado no Rio.
Na avaliação dos policiais, Beira-Mar - que garante ser protegido por uma autoridade de peso - estaria fora do Brasil e provavelmente no Paraguai. Em decorrência das inúmeras extorsões que sofre e pelo fato de estar sendo muito procurado, suas operações com o Cartel de Medellín estão suspensas e Beira-Mar com pouco capital de giro.
O procurador-geral de Justiça do Rio acredita que o traficante possa fornecer nomes que ajudem as investigações a fechar o quebra-cabeças sobre o narcotráfico e seus tentáculos.


