Rio, 07 (AE) - O Ministério Público Federal (MPF) pediu hoje a anexação ao inquérito que investiga a operação de socorro aos Bancos Marka e FonteCindam de apenas um dos quatro envelopes lacrados apreendidos na casa do banqueiro Salvatore Alberto Cacciola.
Trata-se da rescisão de uma cessão de direitos sobre Títulos da Dívida Agrária (TDAs). Os títulos haviam sido passados por Cacciola ao ex-cunhado, o advogado paulista Roberto Moysés. Em 29 de janeiro, segundo o documento apreendido, ele desfez a operação.
O procurador da República Arthur Gueiros, um dos responsáveis pelo inquérito, afirmou que essa rescisão pode indicar uma tentativa de desvio de dinheiro. "Precisamos investigar se o documento aponta para uma dilapidação de patrimônio ocorrida após a operação de salvamento do banco", disse. Numa outra hipótese, o Ministério Público suspeita que Cacciola possa ter, numa medida preventiva para salvar o patrimônio antes da operação de socorro, transferido os títulos para o ex-cunhado. Com a garantia de que o banco não seria liquidado e os bens, preservados, a transferência teria sido, então, desfeita.
Ao sair da 6ª Vara Federal, Cacciola, que presenciou a abertura dos envelopes, garantiu que o documento nada tinha a ver com o socorro ao banco. "Acho que os procuradores são curiosos, querem ver o que é porque não entenderam o que é", ironizou o banqueiro. "É um assunto meu, particular, não tem nada a ver com o processo." Segundo participantes da audiência, Cacciola assistiu à audiência entre sorrisos, apesar da tensão demonstrada pelo advogado José Carlos Fragoso, que apresentou uma petição à juíza para impedir a abertura da correspondência, alegando sigilo postal.
Uma cópia do distrato (rescisão) foi levada também pelo senador João Alberto Souza (PMDB-MA), relator da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) dos Bancos. Ele e o senador Saturnino Braga (PSB-RJ), outro integrante da comissão, acompanharam a abertura dos envelopes. "Queremos saber que cessão era essa", disse Braga. Segundo ele, não havia valores revelados no distrato. Gueiros, a procuradora da República Raquel Branquinho, o advogado do FonteCindam, Técio Lins e Silva
e os delegados federais Eduardo da Matta e Deuler Borges também participaram da audiência.
Os senadores pediram à juíza que ficasse com a CPI um envelope que continha fotos de uma churrascada e algumas cartas. Embora o Ministério Público tenha considerado que se tratava de material pessoal e sem importância para o inquérito, os parlamentares quiseram o envelope. "Não podemos revelar os motivos, mas achamos que as fotos podem apresentar alguns indícios", afirmou Souza. Fontes ligadas à investigação disseram, porém, que as fotos mostravam sinais de muita riqueza, o que poderia ser usado na CPI.
A juíza deu um prazo de dois dias para que a CPI apresente um requerimento formal das fotos e, assim, ela possa decidir se vai liberar o material para os senadores. Enquanto isso, o material ficará sob a guarda da 6ª Vara Federal. Os dois envelopes restantes foram devolvidos aos advogados de Cacciola. Um, com o logotipo Artplan Publicidade e a inscrição "Alberto Cacciola - Leonel - Favor só abrir em caso de necessidade", era uma fotocópia. Segundo Souza, tratava-se de um plano do que fazer em caso de sequestro de alguém da família. O outro, com o logotipo Marka, continha, ainda de acordo com o senador, aplicações financeiras em nome de terceiros que não interessavam à investigação.
De manhã, antes da audiência com a juíza, Souza teve uma reunião com os procuradores da República encarregados do caso.
"Procuramos sintonizar as ações da CPI com as do Ministério Público", disse ele. O relator da CPI garantiu não pretender fazer um relatório parcial dos trabalhos da comissão e reafirmou que, por enquanto, não há provas concretas de irregularidades na ajuda aos bancos. Ele admitiu, porém, que o depoimento dos dirigentes da Bolsa de Mercadorias & Futuros (BM&F), ontem (06), contradisse a principal argumentação do Banco Central (BC) - a de que a instituição pediu a ajuda da estatal para evitar um risco sistêmico. "Alguém não disse a verdade na CPI", afirmou o senador.

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