Rio, 20 (AE) - O Ministério Público Federal instaurou procedimento interno para apurar a legalidade da criação, no início do mês, de uma ala destinada ao atendimento exclusivo de pacientes da rede privada de saúde no Hospital Universitário Clementino Fraga Filho, da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), na Ilha do Fundão, zona norte da cidade.
"O objetivo dessa medida (arrecadar mais verbas) é saudável
mas o efeito pode ser perverso", declarou o procurador da República Rogério Nascimento, que vai examinar a suspeita de irregularidade no projeto. Ele diz estar preocupado com a possibilidade de se constituir um espaço para o atendimento privilegiado. "É preciso avaliar se a medida é lícita e se o efeito prejudicial, que é o possível rompimento da isonomia no tratamento, anula o efeito pretendido."
O diretor do hospital, Amâncio Paulino de Carvalho, deve receber amanhã (21) a notificação do MPF, solicitando uma justificativa para a criação da ala privada. Ele afirma que não há distinção no atendimento de pacientes das alas pública e privada. Para evitar possíveis distorções, Carvalho constituiu uma comissão de ética que vai acompanhar o funcionamento do novo modelo - os 13 primeiros quartos do total de 65 foram inaugurados no dia 11 deste mês.
Apenas uma paciente está internada na unidade, mas encontra-se em fase de negociação um convênio com a seguradora Sul América. Segundo o diretor, a prática trará mais recursos para o hospital - hoje com um déficit mensal de R$ 600 mil -, que seriam aplicados na melhoria das condições de atendimento aos pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS). Ele tem 15 dias para encaminhar uma resposta formal ao MPF.
"Esse projeto é um grande equívoco, porque não se pode encampar a idéia de que o mercado vai trazer a solução para os problemas financeiros do hospital", afirmou o presidente do Sindicato dos Médicos do Rio, Jorge Darze. Ele ressaltou, porém, a "ótima gestão do hospital" realizada por Carvalho desde 1997. "É apenas uma visão equivocada que deve ser abandonada." O diretor já foi ouvido pela Comissão de Saúde da Assembléia Legislativa do Rio, que vai marcar uma audiência com o secretário estadual da Saúde, Gilson Cantarino, para discutir a questão.

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