Rio, 01 (AE) - O Ministério Público Federal (MPF) divulgou hoje uma nota, com críticas à Polícia Federal (PF), na condução do inquérito do grampo telefônico no Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Os procuradores Artur Gueiros e Silvana Batini, que assinam a nota, confirmam a informação de que as investigações não chegaram a nada. "Pode-se afirmar que nada de concreto foi apurado até agora", afirmam eles, que pedem providências ao Ministério da Justiça.
Os dois dizem ser "plausíveis" as reportagens publicadas recentemente pelas revistas "IstoÉ" e "Carta Capital", que apontam o uso do inquérito do grampo como uma forma de o diretor-geral da PF, Vicente Chelotti, intimidar adversários e manter-se no poder - o delegado Rubens Grandini, encarregado das investigações, teria descoberto que a escuta foi obra de arapongas ligados à Agência Brasileira de Informações (Abin), com quem Chelotti tem uma notória disputa política. A Assessoria de Imprensa da PF, procurada pela reportagem, não retornou a ligação até o início da noite de hoje.
"Infere-se das referidas matérias jornalísticas que as investigações do inquérito vêm sendo objeto de manobras políticas, aéticas e algumas criminosas, por parte da cúpula da direção-geral da Polícia Federal", dizem os procuradores. Eles ponderam que, pela natureza da investigação, o MPF não pode prescindir do trabalho da PF - e, por isso, apontam: "Se existem suspeitas graves rondando a chefia da instituição policial, só nos resta aguardar que o Ministério da Justiça interfira".
O inquérito chegou à Procuradoria da República no Rio na semana passada. Depois de três meses de apuração, não há nos autos uma indicação de culpados. Peças básicas para a investigação foram esquecidas: por exemplo, não consta do inquérito nenhuma das fitas com as gravações clandestinas. Não se sabe sequer quantas são, nem quais telefones foram grampeados.
A perícia no equipamento telefônico do BNDES, pedida logo no início das investigações, não foi realizada e a polícia não sabe se a escuta foi posta no gabinete da presidência, na central da empresa Telecomunicações do Rio de Janeiro (Telerj) ou na rua. Nenhum dos arapongas suspeitos foi convocado para depor. O delegado pediu mais 30 dias para continuar as investigações - mas, na nota, os procuradores queixam-se de que o inquérito "se ressente de estabilidade de sua condução", uma vez que Grandini é corregedor da PF no Mato Grosso do Sul e tem de pedir a renovação da designação a cada pedido de prorrogação.
Enquanto na área criminal o problema está na polícia, o inquérito civil público que apura se houve favorecimento na privatização da empresa Telecomunicações Brasileiras (Telebrás) andou parado pela dificuldade do MPF em conseguir informações do Banco do Brasil (BB) sobre a concessão da carta de fiança para o Opportunity. Somente na sexta-feira (26), dois meses depois de a Procuradoria da República ter conseguido na Justiça uma liminar determinando a entrega dos documentos, é que a papelada chegou às mãos dos procuradores.
"Estamos, agora, entrando na reta final do inquérito", afirmou o procurador Flávio Paixão, que calcula um prazo de 30 dias para o encerramento das investigações. O MPF está analisando se a operação foi realizada de acordo com as normas do próprio banco e os procuradores não descartam a possibilidade de ouvir mais pessoas, além das dez que depuseram - entre elas, o ex-ministro das Comunicações Luiz Carlos Mendonça de Barros e o ex-presidente do BNDES André Lara Resende.
Barros, convidado pelo presidente Fernando Henrique Cardoso para a presidência da Petrobrás, teria posto como condição para assumir o cargo ser inocentado nesse inquérito. A pressão política, porém, não vai interferir nas investigações, segundo garantem os procuradores. "Nosso trabalho é técnico: temos de apurar se houve algum favorecimento, diante das evidências colhidas", afirmou o procurador Rogério Nascimento. "Felizmente, não precisamos obedecer a uma lógica política, ou nos preocuparmos se as pessoas envolvidas têm perfil para ocupar determinados cargos."

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