MPF chamará Alberto Cardoso para depor novamente
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quarta-feira, 22 de setembro de 1999
Por Eliane Azevedo e Roberta Jansen 
Rio, 23 (AE) - O Ministério Público Federal
(MPF) vai chamar o ministro-chefe da Casa Militar, general Alberto Cardoso, para depor novamente. O objetivo do grupo de procuradores da República encarregado do caso é esclarecer os motivos e em que circunstâncias aconteceu o encontro entre o general e o ex-policial federal Célio Arêas da Rocha, no qual ele fez revelações sobre o grampo no Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).
A reunião ocorreu em 17 de agosto, num hotel, em Brasília, e dela participaram também o subsecretário de Inteligência, Ariel de Cunto, e o coordenador de Operações da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), Gerci Firmino da Silva. Silva deverá ser indiciado pelo delegado federal Rubens Grandini por falso testemunho: ele declarou que, após receber um telefonema anônimo, descobriu as duas fitas com gravações da escuta clandestina embaixo de um viaduto, em Brasília. A polícia tem elementos que apontam falhas nessa versão.
O MPF informou também que vai pedir à juíza da 2ª Vara Criminal, Cláudia Valéria Fernandes, o perdão judicial para Rocha, baseado na Lei 9.805/99, que prevê benefícios para réus que auxiliem nas investigações. Os procuradores consideram que o ponto mais relevante do depoimento em juízo do ex-policial é o testemunho contra o agente da Abin Temílson de Resende, o "Telmo", que, segundo ele, o convidou para participar do grampo. Mas não descartam a possibilidade de investigar novamente a hipótese de conivência de funcionários do BNDES - Rocha deu nomes de alguns que teriam facilitado a entrada dos arapongas.
Dois aparelhos comumente usados por pessoas que trabalham com grampo telefônico (um scambler e um desmagnetizador), e cinco caixas contendo fitas gravadas estão entre o material apreendido no domingo (19), pela Polícia Federal (PF), na casa de "Telmo".
O scambler é um misturador de vozes. Usado apenas quando as duas pessoas envolvidas na conversa têm o aparelho, ele evita que as falas sejam entendidas no caso de haver uma escuta clandestina. Já o desmagnetizador serve para apagar rapidamente gravações de fitas sem deixar vestígios do que estava registrado anteriormente. De acordo com o auto de apreensão, foi encontrado ainda na casa de "Telmo" um manual de espionagem industrial da agência de segurança Agents.
Segundo o advogado de "Telmo", Carlos Kenigsberg, os dois aparelhos e as fitas pertencem à mulher e à filha do agente
que fazem curso de inglês. "As fitas são referentes às aulas de inglês que elas costumam gravar para estudar posteriormente"
explicou. "O desmagnetizador é usado para apagar as lições antigas e gravar novas." Ainda segundo Kenigsberg, o scambler seria um aparelho que, acoplado ao telefone, indica o número de quem está ligando. "É uma espécie de bina, usado para evitar trotes", disse.
Especialistas em escuta telefônica ouvidos pela reportagem garantiram, porém, que esse tipo de material só é usado por profissionais do ramo.
A PF ainda vai examinar as fitas para saber o conteúdo. De acordo com o depoimento de Rocha à Justiça, um dos "sócios" de "Telmo" numa aparelhagem anti-grampo seria o engenheiro Nelsino Drozczack da Silva, em cuja casa a polícia encontrou material semelhante ao achado na residência do funcionário da Abin. O engenheiro não foi encontrado, mas o pai dele, Nelsino Gomes da Silva, disse hoje que foi Rocha quem convidou o filho para um almoço com "Telmo", em agosto, num restaurante no Rio. "Foi uma armadilha armada pelo Célio para o Telmo confessar alguma coisa e não deu certo", afirmou. "Ele está condenado pela Justiça e quer entrar no programa de proteção à testemunha."


