Rio, 26 (AE) - O Ministério Público Federal abriu inquérito para investigar a denúncia feita pelo jornalista Pedro Bial, da TV Globo, de que um terreno hoje pertencente ao Grupamento de Socorro Florestal do Corpo de Bombeiros, no Alto da Boa Vista, zona norte do Rio, era usado como cemitério clandestino pela repressão, durante a ditadura militar. Entre os mortos ali enterrados estaria o deputado cassado Rubens Paiva, desaparecido desde que foi preso, em janeiro de 1971. Na época, funcionava no local o centro de triagem de presos políticos do Serviço de Diligências Reservadas da Polícia Civil.
A pedido do MPF, uma equipe de legistas, coordenada pelo perito Nelson Massini, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), vasculhou o terreno, que tem cerca de 500 metros quadrados, a partir do sábado de carnaval. A empresa GPR-Hasageo, contratada para fazer as escavações, usou radares e equipamentos de sondagem, mas nada foi encontrado. O serviço foi suspenso na terça-feira. Como a área passou por dois grandes aterros, em 1982 e 1996, os legistas estão trocando informações com técnicos da prefeitura para analisar as condições atuais do local, antes de voltar ao trabalho.
Segundo a procuradora Gisele Elias Santoro, os peritos temem que, com os aterros, as ossadas tenham deslizado pelo barranco que existe atrás do terreno. "Isso vai tornar ainda mais difícil a localização dos ossos", lamentou ela. A Procuradoria da República entrou no caso no último dia 9, quando o jornalista ingressou com uma representação, dizendo ter recebido as informações de militares do Exército que participavam das operações de ocultação dos corpos. Bial afirmou ainda que teve confirmação da existência do cemitério por fontes do alto comando das Forças Armadas, mas não revelou nomes. Dossiê - "Nós já tínhamos algumas informações de que o terreno do Alto serviu como cemitério clandestino, mas nunca tivemos chances de comprovar isso", contou a presidente do grupo "Tortura Nunca Mais", Cecília Coimbra. Na semana que vem, ela deve se encontrar com a procuradora para entregar um dossiê com documentos que abrangem desde a guerrilha do Araguaia até a Operação Condor, um acordo entre o Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai para perseguição sem fronteiras de inimigos políticos.
"Há muitos baús não abertos ainda, pessoas que sabem onde estão os corpos, as circunstâncias das mortes, e isso não foi trazido para a sociedade", apontou. A reportagem procurou a viúva de Rubens Paiva, Eunice Paiva e seu filho, o escritor Marcelo Rubens Paiva, mas não conseguiu localizá-los. É a terceira vez que surgem informações sobre o local onde estaria a ossada do deputado - houve denúncias de que os ossos estariam no Cemitério da Cacuia, na Ilha do Governador e no Recreio dos Bandeirantes, mas nunca se chegou a uma conclusão definitiva.

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