MP vai investigar suposta participação de Greca na destruição de monumento de pataxós na BA
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 13 de abril de 2000
Por Hugo Marques 
Brasília, 14 (AE) - O Ministério Público (MP) vai investigar suposta participação do ministro do Esporte e Turismo
Rafael Greca (PFL), no episódio que levou a Polícia Militar da Bahia a invadir o Parque Indígena Coroa Vermelha (BA), e destruir um monumento que estava sendo construído pelos índios pataxós. No dia 04 de abril, antes da invasão da aldeia por 200 policiais, Greca enviou um fax ao governador do Estado, César Borges (PFL), solicitando que fossem tomadas medidas em relação a construção do monumento. Segundo a cópia do fax, obtida pelo MP, o ministro considerava o monumento dos índios uma "provocação de factóide destinado à mídia".
Em seu fax, Greca informava que recebera da Companhia de Desenvolvimento Urbano do Estado da Bahia (Conder), que cuida de urbanização, um ofício dando conta da "invasão" do Parque Indígena de Coroa Vermelha pelo escultor Dam Baron Cohen, "natural do País de Gales", com "a pretensão de construir ali monumento contrário à comemoração nacional dos 500 anos do Brasil". Greca enumerou em seu fax vários motivos pelos quais a área não seria "edificável". Informou que a área foi considerada "paisagem monumento" pelo relatório de impacto ambiental de implantação do parque.
Entre outros argumentos, o ministro alegou que a área é de preservação histórica e cultural, santuário da nacionalidade, sujeita à legislação constitucional de Patrimônio Histórico e Artístico". Em seguida, assinalou que o governo federal investiu dinheiro na área para "restaurar o caráter de pureza ambiental" e garantir a "ausência de intrusos, não índios". Greca diz ao governador, no texto, que o "pretenso monumento" é "provocação de factóide destinado a mídia desfavorável internacional", que teria posicionamento "contrário" ao Brasil.
Informa, ainda para o governador Cesar Borges que, em "nível federal e com determinação patriótica", estava pessoalmente tomando as "medidas cabíveis" para assegurar a comemoração dos 500 anos. Depois, pede auxílio ao governador. "Rogo-lhe, por outro lado, que proceda à adoção de medidas administrativas e preventivas adequadas a que a intolerância de uns poucos não impeça a Nação inteira de celebrar a brasilidade". Logo depois, explica que a brasilidade não exclui ninguém.
"Respeita profundamente as raízes indígenas, a epopéia dos povos que nos formaram, mas não pode resvalar para o lugar comum do protesto fácil". Este protesto fácil, segundo o ministro, é "aquele que simplifica a formação do Brasil vendo nossa trajetória eloquente como um tribunal de culpas oficiais ou um divã de psicanálise de culpas inconfessáveis de certos segmentos políticos ou pretensamente religiosos".
Cimi - A última referência de Greca é com relação ao Conselho Indigenista Missionário (Cimi) e à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), que vêm apoiando as manifestações dos índios. O Ministério Público quer saber o motivo de o ministro não ter mobilizado primeiro a Fundação Nacional do Índio (Funai)
para levantar o que estava acontecendo na aldeia.
O ministro trocou informações com uma empresa de urbanização. O MP quer investigar ainda se o fax de Greca teria incentivado a ação do governo da Bahia. Segundo os procuradores, a legislação atual só permite entrada em terra indígena de forças policiais federais, acompanhadas de representantes da Funai. Os procuradores querem saber também o motivo de a invasão ter ocorrido no período noturno.
Os procuradores estão checando informação sobre suposta falsificação de documentos. Segundo os eles, uma lista de assinaturas dos índios teria sido anexada indevidamente a um pedido para que autoridades do governo visitassem a região durante as comemorações dos 500 anos. A assessoria de Imprensa de Rafael Greca foi informada sobre a investigação do MP e o teor do fax. A assessoria informou que o ministro estava participando de solenidade de abertura de uma regata no Paraná, sem contato com o ministério.


