Rio, 11 (AE) - O Ministério Público Federal vai apurar denúncias de irregularidades no recebimento e repasse de verbas públicas realizados pela Santa Casa de Misericórdia de Barra Mansa, região do Médio Paraíba, no Rio, único hospital da cidade a prestar atendimento pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Na notícia-crime, entregue ao MP pelo advogado James Walker Junior, consta ainda acusação de que pessoas teriam morrido por falta de atendimento. A internação só era feita mediante o pagamento de taxas que variavam de R$ 700 a R$ 1 mil.
A história tomou proporções maiores graças à investigação de Eros Augusto Alves de Almeida, dono do laboratório de análises clínicas Santa Izabel, que há cerca de 30 anos presta serviços para a Santa Casa. Após assumir o negócio da família, Eros começou a desconfiar que estava sendo lesado pela Santa Casa no repasse de verbas para o pagamento de exames de pacientes do SUS.
As supresas foram muitas. Ao cruzar dados, ele descobriu que em um período de seis meses a Santa Casa não pagou R$ 100 mil por exames. O trabalho de um detetive fez com que chegassem às mãos de Eros denúncias de famílias de pacientes que morreram por falta de atendimento médico. Entre os casos está o de Jonaílza Pereira da Silva, de 23 anos, que em fevereiro deste ano foi até o hospital para ser atendida e, como não tinha os R$ 700 cobrados pelo médico, foi mandada de volta para casa. Com uma gravidez de oito meses de gêmeos, Jonaílza teve complicações e ela e as crianças acabaram morrendo em casa no mesmo dia.
Outras duas mortes serão investigadas. O advogado James Walker Junior, que representa Eros, afirmou que entrará com uma ação de indenização para parentes das vítimas, já que seu cliente obteve depoimentos assinados das famílias. Além disso, Walker Junior vai entrar com uma ação para cobrança da verba que a Santa Casa deve ao laboratório Santa Izabel e uma outra por danos morais e materiais. "O meu cliente está sendo submetido a todo tipo de constrangimento", afirmou o advogado, informando que Eros foi ameaçado de morte várias vezes. A Santa Casa, por sua vez, rompeu com o contrato que tinha com o laboratório.
A secretária de Saúde de Barra Mansa, Sueli Batista de Almeida, informou que foi procurada pelo auditor do Ministério da Saúde do Rio, Claudio Stillner, que irá até a cidade para fazer um levantamento. Ela disse que a Secretaria de Saúde de Barra Mansa vai investigar o caso de Jonaílza Pereira da Silva e
se o problema for comprovado será enviado um dossiê para o Conselho Regional de Medicina do Rio de Janeiro (Cremerj). "Nós já mandamos para o Cremerj o caso da morte de um menino, para maiores apurações". A direção da Santa Casa foi convocada a prestar esclarecimentos no Conselho Municipal de Saúde.
De acordo com Sueli, a prefeitura - que mantém um esquema de auditoria - soube do problema com o laboratório mas não interferiu na questão porque "não tinha governabilidade sobre os pagamentos". "Era um negócio entre a entidade privada/filantrópica e o laboratório", argumentou. A secretária assegurou que o médico que negou atendimento será punido. "Isso é negligência", acrescentando que a direção da Santa Casa foi convocada a prestar esclarecimentos no Conselho Municipal de Saúde. Procurado pelo "Estado", o diretor-médico do hospital, Odilon Resende Barbosa, não foi encontrado.

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