Campinas, SP, 16 (AE) - O Ministério Público (MP) de Campinas vai solicitar abertura de inquérito policial para apurar as circunstâncias em que o motorista Adilson Frederico Luz voltou atrás nas acusações contra o advogado Arthur Eugênio Mathias, apontado pela CPI do Narcotráfico como o "braço jurídico" do crime organizado. Em depoimento em juízo, há 20 dias, Luz acusou Mathias de chefiar uma quadrilha de roubo de carga. No último dia 8, porém, ele registrou uma declaração em cartório, afirmando que foi induzido por membros do MP a forjar as acusações contra o advogado.
O promotor Ricardo Silvares, um dos alvos da acusação de Luz
disse hoje haver indícios de que o motorista teria sido induzido de "maneira ilícita" a recuar das acusações contra Mathias. A principal suspeita, segundo Silvares, é a mulher do advogado, Naara Cristina Vilares, que deverá ser chamada a depor na CPI do Narcotráfico. "Achamos que ele (Luz) foi ameaçado ou recebeu alguma proposta em dinheiro", disse o promotor.
O motorista registrou a declaração no 17º Tabelião de Notas de São Paulo. No documento ele afirma que Silvares e o promotor de Justiça de Igarapava, Rogério Sanches Cunha, "ensinaram o que deveria dizer" ao juiz, num segundo depoimento, prestado em 26 de novembro. Luz havia sido preso em maio, sob acusação de integrar uma quadrilha de roubo de carga.
Na declaração registra em cartório, Luz relata que, no dia 25 de novembro, foi procurado na Cadeia Pública de Igarapava, por um delegado identificado apenas como "Dr. Pio" e um investigador. O delegado, segundo ele, disse que "tinha uma coisa boa para lhe propor". Os policiais, segundo Luz, o levaram para um encontro com o promotor Cunha, no fórum.
O promotor, de acordo com a declaração registrada, lhe sugeriu que, se incriminasse Mathias, no caso do roubo da carga, "teria sua vida facilitada e seria libertado ainda no dia seguinte". No dia seguinte, segundo o motorista, os dois promotores acompanharam seu depoimento ao juiz. "Ao final do depoimento o juiz comunicou que ele estava solto, devendo sumir, desaparecer", diz a declaração. A prisão de Mathias foi decretada três dias após o depoimento de Luz.
O motorista diz que voltou para Campinas, onde mora, e, na semana seguinte, participou de um encontro, no prédio do Ministério Público, com Silvares e os deputados Robson Tuma e Celso Russomano, que integram a CPI do Narcotráfico. Russomano, segundo a declaração, providenciou o embarque de Luz para Brasília, onde deveria ser acareado com Mathias na terça-feira (14) e prometeu-lhe emprego. Tuma, segundo a declaração, lhe deu R$ 50,00, "para o táxi".
No documento, Luz diz que desistiu da viagem após ser convencido por um primo a contar toda a verdade. "Ele se arrependeu ao saber que suas declarações haviam resultado na prisão de meu marido", diz a mulher de Mathias. Ela disse que comunicou a decisão de Luz ao advogado Laertes Torrens, que acompanhou o motorista a São Paulo, onde registrou a declaração.
Apesar de ter acompanhado Luz em São Paulo, Naara nega ter influenciado o motorista a modificar sua versão. Os promotores, porém, contestam essa versão. "Queremos que o inquérito apure se houve coação no curso do processo", disse Silvares. Luz continua desaparecido.

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