Belo Horizonte, 29 (AE) - O promotor José Eduardo Souza Lima, de Caldas, sul de Minas Gerais , envia esta semana à direção da estatal Indústrias Nucleares do Brasil (INB), ex-Nuclebrás, uma série de perguntas relativas a denúncias de moradores de que a empresa está transformando uma de suas unidades, no município, em um depósito de lixo atômico. A INB terá 15 dias, a partir do recebimento da petição, para dar as respostas.
Elas devem ser analisadas por um físico nuclear indicado pela Justiça, "isento, não ligado ao governo federal e nem a Organizações Não Governamentais", segundo Souza Lima. Caso não sejam satisfatórias, a unidade pode sofrer sanções e até ser embargada. "Queremos saber se há lixo atômico e também aquilatar as condições de segurança dadas pela empresa para estocagem do material radiativo", afirmou o promotor.
O geólogo Roberto Kozuki, integrante de uma comissão de moradores de Caldas, criada para defender o meio ambiente e o potencial turístico locais, explica que o problema começou ainda na década de 80. "Inicialmente, a INB só faria a mineração de urânio em Caldas, mas, aos poucos, quando percebeu que a reserva não era a esperada, começou a trazer rejeitos radioativos de outras lugares para cá", disse."Eles alegam que o material é para reprocessamento, mas acreditamos que estão é fazendo um grande lixão atômico na antiga mina, na qual jogam até restos hospitalares, como o césio", acrescentou.
Considerada empresa estratégica pelo governo federal, a INB começou a transportar para Caldas, há alguns anos, a chamada "torta 2", uma mistura de tório e urânio. "Já são mais de 15 mil toneladas estocadas que, dizem, serão aproveitadas um dia, mas sabemos que isso é inviável", disse o geólogo. Agora, denunciam moradores, a empresa estaria depositando na unidade o refugo da produção de terras raras, elementos químicos usados na indústria eletrônica.
Nega - O diretor de relações institucionais da INB, Éverton Carvalho, negou que a empresa esteja fazendo um depósito de lixo atômico em Caldas. De acordo com ele, o estoque de "torta 2" é necessário porque "em breve, esse material poderá ser usado mundialmente para uma série de propósitos". "O tório ainda tem uso restrito, mas logo terá uma grande utilização e o Brasil tem uma reserva de 600 mil toneladas", disse. Já as terras raras, disse ele, são um produto nobre com alto valor de mercado e o rejeito da produção é "mínimo". "Não recebemos nenhuma petição, mas, se isso acontecer, vamos fazer como sempre e prestaremos os esclarecimentos necessário", disse.