Curitiba- O Ministério Público (MP) estadual oficializou ontem o Centro de Apoio às Comunidades Indígenas criado para debater os direitos fundamentais dos índios e defender a manutenção da cultura. A oficialização foi durante o Seminário ''Uma Visão Indígena - História e Atualidade''. Segundo o procurador Geral da Justiça, Milton Riquelme de Macedo, a promotoria é um passo em busca da visibilidade que as comunidades indígenas precisam ter e do respeito que merecem.
A iniciativa é inédita no Brasil. ''Nestes 508 anos do Brasil, estamos sendo massacrados. Hoje não é mais com arco e flecha, mas a caneta jurídica é que está nos condenando. No Mato Grosso do Sul, por exemplo, 400 índios estão entre a população carcerária. Não tem quem defenda os índios'', considerou Romancil Gentil Cretã, coordenador da Articulação dos Povos Indígenas do Sul.
Além dos problemas jurídicos, os índios enfrentam desnutrição e o sucateamento da Fundação Nacional do Índio (Funai). ''Os governos não quiseram investir na Funai, que deveria ter força e recurso suficientes para nos apoiar. A política dos índios é atrasada. Tem mais de 35 anos'', criticou Cretã.
O coordenador do Centro Operacional de Proteção às Comunidades Indígenas, Luiz Eduardo Canto de Azevedo Bueno, reforçou que a promotoria quer garantir a identidade do índio. ''Hoje eles não são nem índios, nem integrados à sociedade. A causa indígena precisa ser repensada e o Ministério Público tem que contribuir com seu aparelhamento jurídico'', pontuou Bueno.
O promotor Willian Lira de Souza, de Guarapuava, disse que é competência constitucional do Estado o cuidado dos povos indígenas. ''Temos que romper os preconceitos. Os índios têm que ser respeitados como iguais. As diferenças são culturais'', disse.
O sertanista Sydney Possuelo lamentou a falta de políticas governamentais. ''Ainda temos no Brasil falta de inserção dos índios, falta de respeito à cultura de povos, dos preceitos constitucionais. As dificuldades são as mesmas há séculos, mas agora são camufladas. Não existe interesse em mudar. Nossa sociedade já separa dentro dela os segmentos sociais, os negros e os pardos. Empurramos para a marginalização'', disse.
Conforme o sertanista, o índio é visto como preguiçoso e um atrapalho ao desenvolvimento social. ''As pessoas esquecem que a cultura indígena é uma cultura com 'C' maiúsculo. Os índios não têm dialetos, têm línguas diferentes da nossa. Temos que mudar a postura social e governamental no enfrentamento das diferenças'', defendeu.

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