O MP-PR (Ministério Público do Paraná) investiga a possível apropriação ou desvio de donativos arrecadados para atender famílias atingidas pelo tornado que devastou Rio Bonito do Iguaçu (Centro Sul), em novembro de 2025. Na quarta-feira (2), a 1ª Promotoria de Justiça de Laranjeiras do Sul e a PCPR (Polícia Civil do Paraná) cumpriu dois mandados de busca e apreensão em prédios da prefeitura do município. A suspeita é de possível peculato.

As ordens judiciais foram cumpridas em um barracão utilizado para armazenar as doações e na sede da Secretaria Municipal de Assistência Social. De acordo com o MP, foram apreendidos documentos e equipamentos de informática, como notebooks, que serão submetidos a perícia técnica e confrontados com informações reunidas no inquérito policial.

A investigação tenta identificar relatórios de inventário, cadastros e registros relacionados às doações destinadas às vítimas do tornado. A partir desses documentos, os investigadores pretendem verificar se houve irregularidades na gestão, no armazenamento ou na destinação dos materiais recebidos para posterior distribuição às famílias atingidas pelo desastre.

Por nota, a PCPR informou que cumpriu os mandados e que documentos foram apreendidos, mas não acrescentou mais informações porque o procedimento é conduzido pelo Ministério Público.

A apuração começou após o MP-PR receber informações de que um veículo oficial de Rio Bonito do Iguaçu estaria transportando bens móveis até um endereço residencial de Laranjeiras do Sul, em agosto deste ano.

Dias depois, o órgão recebeu nova informação de que outro veículo oficial do município estaria sendo usado para transportar bens ao mesmo endereço. A Polícia Civil foi acionada e abordou o automóvel. Na ocasião, constatou que a Secretaria Municipal de Assistência Social havia autorizado o uso do veículo, do combustível e de um servidor público para transportar bens pertencentes ao acervo municipal e materiais recebidos em doações.

De acordo com o MP-PR, os bens foram entregues em Laranjeiras do Sul, na casa de um detento que presta serviços externos em Rio Bonito do Iguaçu. O episódio gerou a instauração do inquérito para apurar a destinação dos materiais.

Com base nos elementos que indicariam possíveis irregularidades, foram solicitadas as buscas e apreensões, que foram autorizadas pelo Juiz de Garantias da Comarca e cumpridas na Secretaria Municipal de Assistência Social e no barracão do Centro de Eventos de Rio Bonito do Iguaçu. Os locais são utilizados para armazenar materiais recebidos para distribuição às famílias atingidas pelo tornado.

Prefeitura contesta suspeitas

Em nota, a Prefeitura de Rio Bonito do Iguaçu informou que colabora com as autoridades, garantindo acesso aos locais, documentos e informações solicitados. A administração municipal afirmou que respeita a atuação independente das instituições de investigação e controle, mas disse ter recebido a medida “com surpresa”, considerando que, segundo o município, sempre foram prestadas as informações solicitadas pelo Ministério Público e por outras autoridades.

A prefeitura também afirmou que a destinação dos donativos “foi realizada de forma correta” e teve como objetivo atender as famílias que mais necessitavam após o tornado. Segundo a administração, eventuais divergências serão esclarecidas no decorrer da investigação.

Por fim, o município reafirmou o compromisso com a transparência, a correta destinação dos donativos e dos recursos públicos, além da proteção das famílias atingidas e da colaboração com as autoridades para o esclarecimento dos fatos.

Destruição e seis mortes

Rio Bonito do Iguaçu foi atingido por um tornado na noite de 7 de novembro de 2025, durante a passagem de uma frente fria pelo Paraná, que destruiu cerca de 90% da estrutura do município e deixou seis mortos em Rio Bonito do Iguaçu e centenas de feridos. Inicialmente classificado como F2, o fenômeno foi posteriormente elevado pelo Simepar (Sistema de Tecnologia e Monitoramento Ambiental do Paraná) para F4, com ventos compatíveis com essa categoria.

O tornado provocou a destruição de residências e prédios públicos, além de derrubar árvores, arremessar veículos e causar danos generalizados. O levantamento inicial apontou mais de 2,2 mil imóveis vistoriados, entre residências, comércios e prédios públicos e privados.

Na primeira semana após o desastre, a rede de atendimento regirou pelo menos 775 feridos e 39 pessoas desabrigadas. Mais de mil famílias foram afetadas e o governo do Paraná anunciou medidas emergenciais que incluíam a construção de 320 casas e repasses de até R$ 50 mil por família para reformas.

A dimensão da destruição mobilizou equipes municipais, estaduais e federais, além de voluntários e entidades que passaram a atuar no socorro e na reconstrução. Donativos de alimentos, roupas, materiais de construção e outros itens foram arrecadados para auxiliar as famílias atingidas.

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