Curitiba - Os médicos Eldo Ern e Cristina Cerniak, de São José dos Pinhais, Região Metropolitana de Curitiba, estão sendo acusados de utilizar o medicamento abortivo Cytotec em pelo menos 400 mulheres grávidas pouco tempo antes da data de elas darem à luz. Os médicos faziam isso para adiantar os partos, que eram sempre feitos em seus plantões, o que era vantajoso financeiramente para eles. Há indícios, inclusive, de antecipação de nascimentos em até quatro semanas. O caso está sendo investigado pelo Ministério Público (MP), que recebeu a denúncia do Hospital e Maternidade São José dos Pinhais, onde eles faziam os partos.
A suspeita surgiu durante a investigação que apurava se os dois médicos estavam praticando dupla cobrança dos pacientes. O Sistema Único de Saúde (SUS) pagava pelos procedimentos, mas eles também cobravam dos pacientes. A primeira medida judicial do MP já foi ajuizada ontem e visa impedir a entrada dos médicos no hospital. Contudo, uma ação civil pública, mais abrangente, está sendo preparada pelo promotor Divonzir José Borges.
O provedor do hospital, que assumiu o cargo este ano, Moacir Piovesani, conta que enquanto os documentos sobre o caso de dupla cobrança eram colhidos no hospital, descobriu-se no setor de farmácia uma enorme quantidade de guias de Cytotec pedidas pelos médicos acusados. Como é um remédio controlado, toda vez que um médico prescreve, precisa preencher uma receita com a data e os dados da paciente, que mais tarde é enviada para a Vigilância Sanitária.
O MP recolheu os prontuários de todas as pacientes que tinham seus nomes nas guias de requerimento de Cytotec para comparação. Todas elas haviam tido seus bebês exatamente na data do requerimento do remédio, porém a informação do uso do Cytotec não constava em nenhum dos prontuários. Os obstetras aplicavam o remédio no colo do útero das pacientes durante um exame de rotina e poucas horas depois elas entravam em trabalho de parto.
Os prontuários examinados são de 2001 a 2003. Ainda não se sabe se a prática já vinha acontecendo antes deste período. Até agora, o MP colheu apenas o depoimento dos funcionários que trabalhavam com os médicos. Todos confirmaram a prática. ''Esses funcionários não denunciaram porque estavam subordinados aos médicos e não tinham como discordar do diagnóstico e dos procedimentos praticados por eles'', explica Piovesani. A nova direção do hospital detectou em abril o grande volume de compra de Cytotec, mas na época apenas limitou a compra e o uso.
Segundo um levantamento feito pelo MP, em junho deste ano, dos 148 partos realizados pelo hospital, 121 foram feitos pelos médicos denunciados e os 27 restantes por outros seis médicos. Em julho, nasceram 155 crianças, sendo 106 pelas mãos dos dois médicos e as outras 49 pelas mãos de outros sete médicos. Em agosto, último mês de trabalho de Ern e Cristina no hospital, dos 139 partos, 101 foram feitos por eles e os 38 restantes por dez médicos.
Os médicos estão afastados do hospital desde o fim de agosto, devido às suspeitas de dupla cobrança. O MP também acusa os dois de terem alterado o prontuário das pacientes para descaracterizar a prática depois do afastamento. Depoimentos de funcionários do setor administratico confirmam as mudanças. O hospital entrou com uma medida judicial há 10 dias proibindo a entrada dos médicos no hospital. No mesmo dia, eles entraram com uma medida cautelar para anular a ação do hospital.

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