Porto Alegre- Enquanto os representantes dos governos de 81 países participam da 2 Conferência Internacional sobre Reforma Agrária e Desenvolvimento Rural a portas fechadas, o movimento social expõe em diversas frentes suas reivindicações. Eventos paralelos prometem oferecer sugestões à reunião oficial e manifestações públicas chamam a atenção para a questão agrária nas ruas de Porto Alegre.
A Via Campesina Internacional, Rede Social de Justiça e Direitos Humanos e Rede Terra pediram ontem que os Estados se responsabilizem diretamente pela redistribuição de terras e reconhecimento das áreas coletivas habitadas por povos indígenas.
Como subsídio, apresentaram uma pesquisa feita 1,6 mil famílias assentadas em 161 municípios de 13 Estados brasileiros pelos programas incentivados pelo Banco Mundial, como Cédula da Terra, Crédito Fundiário e Banco da Terra, para mostrar que a chamada ''reforma agrária de mercado'' não estaria dando certo. O modelo prevê a aquisição de terras financiada por programas públicos.
Segundo a pesquisa, 35% das famílias não escolheram a terra que compraram, 41% não participaram da negociação, 48% declararam que ficaram com lotes improdutivos, 54% não tiveram acesso ao contrato de compra e venda; 48% desconhecem as penalidades se não pagarem pela terra; 36% não receberam financiamentos para iniciar suas atividades; 86% não têm assistência técnica regular; 72% não tem acesso a ambulâncias em casos de emergência; 47% não produzem o suficiente para o próprio sustento e 19% já passaram fome.
O hondurenho Rafael Alegria, um dos coordenadores da Campanha Global pela Reforma Agrária, da Via Campesina, disse que o sistema incentivado pelo Banco Mundial não é um problema só do Brasil e presta-se a uma escalada da corrupção. Afirmou que é comum que especuladores consigam titular suas terras para vendê-las a preços superfaturados aos programas. ''O Brasil, que nunca fez sua reforma agrária, tem outros meios, constitucionais, para democratizar a terra'', complementou Maria Luisa Mendonça, da Rede Social de Justiça e Direitos Humanos.
A Via Campesina organiza o Fórum Terra, Território e Dignidade, um encontro de representantes do movimento social de todo o planeta que vai elaborar propostas a serem oferecidas à conferência.

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