Porto Alegre, 14 (AE) - O histórico Theatro São Pedro, de Porto Alegre, inaugurado em 1858, foi palco, ontem (13), do lançamento do primeiro CD do movimento dos sem-terra. Intitulado "Canções que Abraçam os Sonhos", o disco reúne em 18 faixas as melhores classificadas no 1º Festival Nacional da Reforma Agrária. As palavras terra, chão, luta e povo são repetidas diversas vezes nas músicas selecionadas; como no refrão de "Procissão dos Retirantes", em primeiro lugar no festival: "Eu não consigo entender/que nesta imensa nação,/ainda é matar ou morrer/por um pedaço de chão". Pela prmeira vez em sua história, o teatro, inaugurado ainda no Império, abriu suas portas para o som de acampamentos e assentamentos. A casa ficou lotada. No palco, duas grandes bandeiras: uma do Brasil e outra do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST).
Entre as músicas selecionadas, engajadas milongas, chamamés, ritmos sertanejos, xotes e até um rap ("E você, meu irmão/O que faz para contribuir?/Creio que nada/Prefere assistir/Nossa gente sendo massacrada", questiona Tributo ao Trabalhador Sem-Terra) que reproduzem imagens do cotidiano dos ranchos e das barracas, com ênfase na solidariedade e na mobilização. "Lonas pretas, que bordam beiras de estradas/são marcos de uma busca e de consciência/a desafiar os que oprimem a mão armada/e ainda fazem o remate da querência", discorre uma das estrofes de "Chão e Terra", milonga de Alex Della Méa e Antônio Gringo.
"Procissão dos Retirantes" começa inquirindo "Terra-Brasilis, continente/Pátria-mãe da minha gente,/Hoje eu quero perguntar:/Se tão grandes são teus braços,/ porque negas um espaço/aos que querem ter um lar?" Adiante, a letra longa, de 11 estrofes, trata de um episódio recente: "No Eldorado do Pará,/Nome índio, Carajás/Um massacre aconteceu,/Nesta terra de chacinas,/essas balas assassinas,/todos sabem de onde vem". E toca no abismo social do país: "Pátria amada do Brasil,/De quem és mãe gentil?/Eu insisto em perguntar:/Dos famintos da favelas / ou dos que desviam verbas/pra champagne e caviar?"
Dividindo-se em trechos falados e cantados, "Tralhas de um Acampado", lista os pertences que os sem-terra levam de acampamento em acampamento: "Um machado bueno e um três listras (facão de roçar mato) que não entrego/Um maço de prego, um martelo e umas (sic) lona preta/Uma caneta e um caderninho pra escrevinhar/Quando a conjuntura desta luta dura/Sempre que mudava eu tinha que anotar (...)". Palavras e expressões como esperança, lonas pretas, companheiro, igualdade, dignidade, consciência e os verbos ocupar, resistir, produzir, conquistar, avançar e lutar permeiam a militância explícita do CD.
O festival aconteceu entre 4 e 10 de fevereiro, em Palmeira das Missões, no Rio Grande do Sul. "O nível dos concorrentes foi muito bom", opinou um dos coordenadores do festival, Augusto Olsson, da direção do MST/RS. Foram 286 inscritos. O evento foi patrocinado pelo MST, com ajuda da prefeitura de Palmeira das Missões, de cooperativas agrícolas de assentados, sindicatos, da Universidade de Ijuí/RS (Unijuí), algumas empresas e governo estadual, que investiu R$ 30 mil na prensagem de dez mil CDs. A cantora Cida Moreira e os músicos Luis Carlos Rahnos (RS), Pingo de Fortaleza (CE) e Carlos Eugênio Paz (SP) integraram o júri. O festival acontecerá a cada dois anos e a próxima edição acontecerá no Rio. "Será no Rio, com o apoio do governo estadual", disse Olsson.

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