Movimento quer mudanças na ortografia
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sexta-feira, 13 de junho de 2014
Marian Trigueiros<br>Reportagem Local 
Londrina - Apesar de muitos brasileiros já terem aderido à reforma ortográfica da língua portuguesa, assinada em 2008, o acordo ainda não entrou oficialmente em vigor. O prazo para a obrigatoriedade foi prorrogado pelo governo federal para 1° de janeiro de 2016, juntamente com Portugal e outros países lusófonos. Enquanto isso, é inegável a evidência que o movimento "Simplificando a Ortografia" tem ganhado, sobretudo após a formação de um Grupo de Trabalho Técnico (GTT), na Comissão de Educação do Senado, que tem a esperança de emplacar o que chamam de "ajustes" para tornar a compreensão das regras mais acessíveis.
A principal meta do movimento liderado pelo professor Ernani Pimentel é alcançar um sistema que apresente um número menor de regras e de exceções e uma maior abrangência. "É muito comum a dúvida entre escrever X ou CH, porque não há uma regra clara e objetiva. Os próprios dicionários e os vocabulários ortográficos de Brasil e Portugal se contradizem. Para escrever CHaCHo, ou XaXo, já se instaura a dúvida. Qual a forma correta? Faz alguma diferença para a pronúncia? Não", exemplifica Pimentel. Para isso, ele sugere que a solução para esse problema seja a eliminação do CH, e o X sirva apenas para representar esse som, assim como no caso do Z, S e Ç. "Assim, acabam-se as dúvidas", decreta.
Para Pimentel, quem está aprendendo a escrever "não entende por que e quando se usa uma ou outra letra". "Responda o motivo de três letras para representar o mesmo som, o de Z: fuso, fuzo, fúsil, fuzil, laser, lazer, casar, bazar, exumar. Mesmo que o professor se desdobre para arranjar uma explicação para cada caso, o aprendiz - seja brasileiro ou estrangeiro - se sente perdido, confuso, desanimado. E o pior, conclui que apreender português é muito difícil, que nada tem lógica", completa. O professor ressalta ainda que, por esse motivo, ao longo do tempo se fortaleceu uma certa repulsa e a crença de que português é muito difícil, gerando um bloqueio psicológico fortalecedor do analfabetismo.
CRÍTICAS
Evanildo Bechara, gramático e membro da Academia Brasileira de Letras (ABL), afirma que o grande problema da língua portuguesa, atualmente, é estrutural - como a frase é elaborada, e não a ortografia. "Há dezenas de corretores ortográficos hoje. Além disso, a ortografia, com o tempo, torna-se memória visual. Mas a linguagem coloquial e a maneira de escrever as frases estão cada vez pior. Isso, sim, é preocupante." Conforme o estudioso, o apoio de senadores ao GTT e o movimento que defende o uso da ortografia baseada no sistema fonético ou sônico mostram o quanto não sabem do sistema ortográfico e não entendem de princípios linguísticos. "Esse sistema possui três grandes óbices que são intransponíveis."
Ele explica que a língua portuguesa é baseada na etimologia da palavra, quer dizer, em sua origem. "Mas, pela duplicidade de palavras com o mesmo som - o caso das homófonas - as letras distinguem aquelas de origem distintas, como o exemplo de passo e paço. Se excluirmos isso, dando apenas uma só letra para cada som, acabaremos com a possibilidade de diferenciação do significado. E mais, qual pronúncia será a maneira correta eleita para grafia? Além disso, há ainda as variações regionais de pronúncia", reforça.
O segundo ponto que Bechara destaca é a separação cultural e histórica do português com todas as outras línguas irmãs, como o espanhol e italiano, e a uniformidade com a língua escrita e a participação em um grupo de países que facilita a divulgação da língua pelo mundo.
DEFESA
Pimentel diz que são duas dificuldades diferentes que precisam ser enfrentadas: a ortografia e a estruturação do texto. "Só que normalmente não se percebe a dimensão do problema ortográfico. Do ensino fundamental ao médio, gastam-se 400 horas/aula com ortografia, para decorar muito e aprender quase nada. Já os ajustes ou pequenas mudanças, conforme o Pimentel, são completamente diferentes das críticas sobre a ortografia baseada apenas no sistema fonético ou sônico. "Os sons É, Ê, I, por exemplo, dependendo da região, são produzidos por quem lê a palavra mEnino (mÉnino, mÊnino, mInino). Esses e outros casos, realmente, devem ser respeitados por sua fragilidade e instabilidade, visto que neles a escrita não padroniza a pronúncia. Mas as sugestões de mudança, ao contrário, resolvem o problema da fragilidade ortográfica", argumenta.


