Movimento prega novos rumos para o PT e racha blocos
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sexta-feira, 20 de agosto de 1999
Por Vera Rosa 
São Paulo, 21 (AE) - Um movimento petista sem fronteiras
que começou no Rio Grande do Sul e se alastrou para vários Estados, é a novidade desta temporada política de confronto entre o governo e a oposição. Batizado de Rede e tendo como coordenador o ex-prefeito de Porto Alegre Tarso Genro, o grupo prega novos rumos para o PT. A proposta de "oxigenação" do partido reúne não só insatisfeitos sem alinhamento com facções internas como ameaça provocar um racha no time da Articulação - a poderosa corrente de Luiz Inácio Lula da Silva.
Os simpatizantes da Rede farão sua primeira reunião nacional no mês que vem, quando decidirão se devem lançar candidato à presidência do PT. É bastante provável que isso ocorra, até porque a adesão ao movimento tem surpreendido. Em outras palavras: há muita gente descontente. O PT renova sua direção em novembro, durante o 2.º Congresso, em Belo Horizonte. Um encontro convocado com o objetivo de debater temas cruciais para o partido. Estão na pauta itens que vão desde a política de alianças para as próximas eleições até a discussão do tão falado projeto alternativo de poder, passando pela definição de estratégias e propostas para sair da crise. O inventário da trajetória petista e do socialismo é um dos temas que prometem causar enorme polêmica. Fiel da balança - O grupo de Tarso poderá ser o fiel da balança dessas discussões e da composição das chapas. Antes do surgimento da Rede, o cenário mostrava apenas dois candidatos à presidência do PT, numa reedição da disputa travada em 1997: os deputados federais José Dirceu (SP) e Milton Temer (RJ). Dirceu é o atual presidente e sustenta que não reinvidicará a recondução ao cargo, embora sua entrada no páreo seja dada como certa por correligionários. Agora, tudo indica que a Rede também apresentará um nome para o comando do partido. "Eu não tenho essa pretensão porque quero concorrer à prefeitura de Porto Alegre", desconversa Tarso.
Nessa empreitada, ele enfrentará dois adversários dentro do PT: o atual prefeito, Raul Pont, candidato à reeleição, e o vice, José Fortunatti. De qualquer forma, com ou sem Tarso como "presidenciável", a Rede vai agitar as discussões partidárias. "A idéia é formar um terceiro campo político no partido, porque a atual contraposição entre moderados e radicais é insuficiente", diz Tarso, ele próprio um moderado que causou espanto, no início do ano, ao defender a renúncia do presidente Fernando Henrique Cardoso e a antecipação das eleições. Foi criticado por vários companheiros, entre eles Lula e José Dirceu.
"O PT está muito blocado: um grupo é mais à direita, o outro é mais à esquerda e os dois são impermeáveis às idéias de quem está fora deles", concorda o deputado João Paulo Cunha (PT-SP). Um dos nomes importantes da Articulação que têm discutido com a Rede, João Paulo confessa estar "incomodado". "A Articulação tinha ouvidos tanto para a esquerda como para a direita, mas, à medida que se formou o campo majoritário, perdeu seu lado de árbitro", lamenta. Apêndice - Ex-presidente do PT de São Paulo e amigo de Lula, João Paulo faz uma autocrítica e acha que a produção do PT tem sido insuficiente para atender ao que chama de "demanda angustiada". Por isso, defende uma nova "constituinte" no PT. "Continuo na Articulação, mas estou aberto ao debate que a Rede propõe", observa. Lula não dá importância ao racha anunciado. "Se esse grupo está surgindo para distensionar as relações internas, acho ótimo", afirma.
"Não podemos ficar patrulhando ninguém", completa José Dirceu, que considera "uma pequenez" dizer que o PT está dividido entre moderados e radicais. "Quem fala isso não conhece o PT", argumenta Dirceu. O deputado Geraldo Magela (PT-DF) discorda: "Não queremos ser apêndice de moderados nem de esquerdistas, mas é o partido que está refém de um debate maniqueísta".
Atualmente, o PT tem dez correntes organizadas nacionalmente, sem contar as regionais. Este cálculo não inclui a Rede, que, ao menos por enquanto, não é uma tendência. "Nossa intenção é justamente mudar essa lógica, ampliando os debates para além dos filiados e das facções", argumenta Magela, um ex-militante da Articulação que agora está na Rede. O guarda-chuva petista abriga desde trotskistas e defensores da luta armada a uma gama variada de católicos e apoiadores do diálogo com o governo.
Uma leitura atenta das propostas de teses apresentadas pelas correntes para nortear o debate no 2.º Congresso mostra claramente as divergências. Todas as facções à esquerda na composição ideológica do PT sustentam que um dos desafios desse Congresso será discutir o "socialismo petista". Tarso assina embaixo com ironia, argumentando que "hoje, no partido, cada setor tem o seu socialismo particular".
O bloco majoritário do PT, no entanto, acha que a discussão do socialismo nem de longe é o ponto central do 2.º Congresso. "A crise atravessada pelo País é tão grande que devemos deixar de lado debates exógenos", afirma o líder do PT na Câmara, José Genoíno (SP). "Precisamos rediscutir o programa para dialogar com a sociedade e apresentar alternativas reais aos problemas do País". O deputado Antônio Palocci, presidente do PT paulista, tem raciocínio semelhante. Para ele, o partido necessita de uma reflexão que ultrapasse suas correntes "porque nenhuma delas responde qual deve ser a estratégia de ação política". Guilhotina - Presidente de honra do PT, Lula vai mais longe. "Um partido que é alternativa de poder e tem interesse em ganhar as eleições de 2000 e 2002 deve aproveitar essa oportunidade para descascar os grandes temas, como política de alianças, estratégia de ação e modelo econômico", avalia. Na opinião de Lula, se a disputa interna marcar as reuniões do encontro de novembro, o debate será "muito pobre e frustrante".
No Rio Grande do Sul, o petista Jorge Branco está inconformado com esse discurso. "Querem pôr as idéias da esquerda do PT na guilhotina", protesta Branco, que é diretor-superintendente da Metroplan no governo Olívio Dutra. Integrante do diretório nacional do PT e da tendência Articulação de Esquerda, ele prevê que a Rede cumprirá "um papel equivocado" na tentativa de disfarçar as diferenças de concepção entre as facções.
"Para começar, rede é um conceito da política que significa antítese de partido, é a unidade enquanto os interesses forem comuns", lembra Branco. "E nós já vimos esse filme antes". Pelo visto, a rede de intrigas vai continuar no PT.


