Dimitri do Valle
De Curitiba
Conhecida pelo histórico de manifestações democráticas, a Boca Maldita deixará de ser, pelo segundo ano consecutivo, o local de protesto da comunidade negra de Curitiba. A Prefeitura não permitiu a realização do evento para marcar hoje a passagem dos 304 anos da morte de Zumbi dos Palmares e o Dia Nacional da Consciência Negra. A denúncia foi apresentada ontem à tarde durante entrevista coletiva na Central Única dos Trabalhadores (CUT).
‘‘Nos foi negado o direito de denunciar as práticas de racismo em Curitiba’’, afirmou Osvaldo Alves de Araújo, integrante do Coletivo Estadual da CUT contra a Discriminação Racial. Araújo disse que a medida é uma represália. No ano passado, ele contou que as entidades ligadas ao movimento negro não foram autorizadas para fazer qualquer tipo de manifesto na Boca. Apesar da proibição, o ato público foi promovido. A programação de hoje prevê manifestações na Praça Rui Barbosa e uma marcha em direção à Boca Maldita para protestar contra a medida da municipalidade.
A assessoria de imprensa da Prefeitura de Curitiba negou as acusações de retaliação. A assessoria informou que no dia de hoje ocorrerão três eventos paralelos na região que abrange a Boca Maldita: ensaio no Palácio Avenida para as apresentações noturnas de Natal, a feira natalina que começa hoje na Praça Osório e um evento natalino da Associação Comercial do Paraná (ACP). A programação estava agendada desde o início do ano, segundo a Prefeitura. Devido à quantidade de eventos num só dia, a Prefeitura ofereceu as Praças Santos Andrade e Rui Barbosa, que acabou sendo a escolhida. A licença saiu no dia 15 de outubro e a Secretaria de Urbanismo alegou nunca ter recebido qualquer reclamação.
Segundo os ativistas do movimento negro, a proibição do ato na Boca Maldita é apenas uma das facetas sutis do racismo praticado na maior cidade do Estado. A diretora de formação do Sindicato dos Servidores do Magistério Municipal de Curitiba, Almira Maciel Corrêa, recordou que a contribuição histórica dos negros sempre foi esquecida pelas autoridades. Enquanto italianos, ucranianos e poloneses ganharam monumentos de destaque dedicados aos antepassados que ajudaram no desenvolvimento de Curitiba, Almira lamenta que os negros não são vistos com a mesma importância.
A dirigente sindical mencionou que em relação a espaços públicos dedicados a homenagear os negros, existe apenas uma praça, no bairro Pinheirinho, na periferia de Curitiba, batizada de Zumbi dos Palmares. ‘‘Ninguém sabe onde ela fica’’, observou. Apesar do ‘‘esquecimento’’, ela lembra que a população negra da capital corresponde a 23% da população. ‘‘Não existe democracia, muito menos racial. Acreditamos que existe uma postura discriminatória na cidade’’, comentou.

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