São Paulo

Arquivo FolhaEstopimNa terça-feira, milhares de policiais militares e civis seguiram em passeata até a Praça da Liberdade, sede do governo mineiro, exigindo melhores salários. A revolta resultou em confronto com a própria PMFalta de pagamento desde abril e regimento disciplinar rígido. Suicidas, moradores de favelas, homens que mudam de bairro para fugir de criminosos ou que deixam a corporação em um ritmo de dois a cada três dias. Esses são alguns dos problemas dos PMs do País.
A crise na Polícia Militar de Minas Gerais pegou de surpresa os comandos das outras PMs. Coronéis de São Paulo consideravam que a polícia daquele Estado era a mais disciplinada do País. O Estado-Maior da PM paulista acompanhou a revolta em Minas. Sua maior preocupação era evitar comparações entre a corporação mineira e a de São Paulo, desgastada pelas cenas de violência em Diadema (Grande São Paulo). Outras Polícias Militares também estão fazendo planos para evitar a repetição da revolta mineira em seus estados. No Mato Grosso do Sul, o comando pediu aos oficiais que ouçam mais a tropa. ‘‘A PM, como a entendíamos até esta semana, acabou’’, disse o comandante-geral da PM no Estado, coronel Francisco Libório Silveira.
Na Bahia, o governo diz estar estudando aumentar os salários dos soldados e cabos de R$ 375 para R$ 600. No Paraná, o salário dos soldados passou, há um ano, de R$ 360 para R$ 750. Desde então, diminuiu o número de policiais que pedem desligamento da PM.
Em Alagoas, o problema não é reajuste salarial, mas receber o pagamento. ‘‘Com o atraso do pagamento, as consequências são as piores: policiais desmotivados e insatisfeitos’’, disse o coronel Jaime Costa Braz, subcomandante-geral da PM no Estado.
No Pará, a Polícia Civil e a Militar decidem se entram em greve na próxima quarta-feira. Elas querem aumentar o piso salarial de R$ 176. Uma carta com as reivindicações foi enviada ao governo no dia 24. Novo regulamento Em Minas, além do reajuste, os praças (soldados, cabos, sargentos e subtenentes) comemoraram o fato de os comandantes terem aceitado discutir um novo regulamento disciplinar para a tropa. Um projeto semelhante está sendo feito pela Secretaria da Segurança Pública de São Paulo.
Além do aumento salarial, os praças (soldados, cabos, sargentos e subtenentes) da PM de Minas Gerais comemoram uma segunda e ‘‘importante’’ vitória: a discussão sobre as relações internas na corporação, priorizando a humanização dos militares.
Nos 13 dias de rebelião na PM mineira - que gerou confrontos entre os rebeldes e os ‘‘legalistas’’, com troca de tiros e um cabo ferido gravemente na cabeça -, os manifestantes insistiram todo o tempo na reformulação das relações interpessoais na corporação. Também pediram mudanças no temido RDPM, o regulamento disciplinar da polícia mineira. ‘‘É um regulamento ultrapassado. Felizmente o comando da PM se mostrou sensível à questão. Foi, sem dúvida, uma vitória tão importante quanto os 48% de reajuste’’, disse o sargento Washington Rodrigues, um dos líderes rebeldes.
Segundo ele, a ‘‘democratização das relações humanas certamente fará com que a PM de Minas seja mais justa com todos’’.
Para o cabo Júlio César Gomes, principal líder dos soldados, o RDPM é a causa maior dos problemas dos PMs. O que os praças querem é ser tratados como cidadãos comuns quando o assunto não envolver a PM.
Forças Armadas - Os problemas salariais enfrentados pelos militares das Forças Armadas não são muito diferentes dos que existem nas Polícias Militares. No Exército, na Marinha e na Aeronáutica, entretanto, ainda não surgiram focos de indisciplina, como ocorreu com a Polícia Militar de Minas Gerais. Mas os ministros vêm recebendo, com frequência, queixas que chegam pelos canais hierárquicos competentes. A defasagem salarial nos Ministérios Militares, de acordo com estudos desenvolvidos pelo setor, é da ordem de 36,05%, em relação a janeiro de 1995.
O ministro-chefe da Casa Militar, general Alberto Cardoso, ao comentar a situação salarial nas Forças Armadas, fez questão de observar que ‘‘acima de qualquer outro valor, há o valor da disciplina’’. Segundo o general, a situação do pessoal, não é boa, mas os militares ‘‘têm entendido a necessidade do sacrifício’’.

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