Foi uma surpresa para a família Valério receber, há menos de dois meses, a notícia de que havia ganho na Justiça de Osasco uma indenização pela morte do filho Ivan Daniel Valério, de 16 anos, apenas nove meses depois de entrar com uma ação civil. Ivan foi uma das 42 vítimas da explosão no Osasco Plaza Shopping, ocorrida há exatamente um ano, e sua família, a primeira a ganhar a indenização na Justiça.
A decisão não foi suficiente para apagar a tragédia do coração dos pais de Ivan, Dario e Janete. A mãe toma remédios contra depressão e teve complicações cardíacas pela perda do rapaz. Mas a rapidez da resposta já é um alívio para a dor de quase 200 famílias, a maioria sem condições financeiras, que perdeu alguém ou teve um parente ferido.
Um ano depois da explosão, o diretor da proprietária do shopping, a B7 Participações, Marcelo Zanotto, avalia que o movimento está 20% menor que no mesmo período do ano passado nos 200 pontos de venda. Desde a tragédia, cinco lojas deixaram o shopping e seus pontos ainda não foram ocupados. Mesmo assim, Zanotto acredita que ‘‘trabalhando duro’’, o shopping conseguirá pagar as indenizações em poucos anos.
Os lojistas não reclamam do movimento e os corredores continuam cheios. ‘‘Está como antes e ninguém comenta mais o acidente’’, diz a lojista Maria Kano Von Zubin. Os pais de Ivan, porém, não esquecem a perda do filho. Eles ganharam apenas em primeira instância uma indenização de R$ 45 mil por danos morais mais uma pensão mensal de dois salários mínimos até o dia em que Ivan completaria 65 anos. A B7 já entrou com recurso e começa agora uma longa batalha judicial. A família não tem previsão de quando põe a mão do dinheiro, muito menos de quando supera a tragédia que vitimou o filho.
Além da família Valério, outras duas já receberam sentenças favoráveis. A perspectiva de que os responsáveis tenham de ressarcir as vítimas foi confirmada com a condenação da B7 em uma ação civil movida pelo Ministério Público. ‘‘Essa decisão rápida é um exemplo a ser elogiado’’, comentou o presidente da Comissão de Defesa do Consumidor da Ordem dos Advogados do Brasil, Adinan El Kadri.
O recurso já está no Tribunal de Justiça e, assim que a decisão for confirmada, as vítimas podem procurar advogados particulares ou assistência judiciária para pedir a excução da sentença. Pelo menos 85 ações civis individuais contra a B7 Participações, a Wysling Gomes (construtora do shopping) e a gerenciadora BRR já tramitam no fórum.
Gonçalo Ferreira de Castro, pai de Gilmara Pereira de Castro, de 16 anos, outra vítima da tragédia, também já ganhou na Justiça por danos morais. A filha já sofreu 20 cirurgias e talvez só volte a andar com aparelhos. Mas Castro não está festejando a vitória. ‘‘Minha preocupação é que o shopping deixe de ajudar mensalmente porque ganhamos a indenização’’, afirma.
O processo criminal corre rápido. Três funcionários da manutenção e administração do shopping são acusados por explosão com dólo eventual _ porque não tomaram providências para evitá-la. Eles podem pegar de 6 a 12 anos de prisão. Outros três engenheiros da Wysling e um da BRR respondem por explosão culposa (sem intenção) e, mesmo condenados, não devem ir para a cadeia.
Já foram ouvidas 9 vítimas e 15 testemunhas de acusação. As cerca de 70 testemunhas de defesa serão ouvidas no segundo semestre. ‘‘Todo mundo está mobilizado com a tragédia’’, diz a promotora Marilu Scarati de Castro Abreu.
Dario Valério, que nunca pediu ajuda ao shopping, insiste na indenização como uma forma de garantir justiça. ‘‘É o único modo de fazê-los pagar pelo que fizeram, mexer no bolso, porque não acredito que os responsáveis vão ser presos.’’

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