Movidas pela paixão
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quarta-feira, 07 de março de 2001
Maigue Gueths De Curitiba 
Quando a bióloga Eleidi Freire Maia se formou em História Natural pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), em 1965, o Brasil engatinhava nas pesquisas genéticas, não existiam laboratórios com tecnologia adequado, genoma humano era assunto desconhecido e mulher cientista era tema de filme de ficção. Trinta e seis anos depois, a estudante Lupe Furtado, de 28 anos, encontra um mercado de trabalho bem mais tranquilo. Para começar, sua orientadora de tese, defendida dia 20 de fevereiro, é nada menos do que a própria Eleidi. Os estudos também são mais difundidos. No próprio Departamento de Genética da UFPR, ela compartilha experiências com outras cientistas que estudam genes, proteínas e enzimas que compõem o genoma humano.
Quando comecei, as ciências eram um trabalho bem masculino. Muitas pessoas nem entendiam por que é que eu fazia tantos cursos e trabalhava tanto, conta Eleidi. Lupe crê que as pessoas ainda tendem a acreditar que cientista é uma profissão masculina. A ciência é caracterizada como uma função racional, que sempre foi vista como uma característica masculina. Na verdade, o cientista é movido pela paixão, pela vontade de conhecimento, que são comuns ao homem e à mulher, ambos movidos pela curiosidade, afirma.
Apesar das dificuldades, Eleidi, hoje aos 58 anos, conquistou seu espaço dentro do mundo da genética. Dos primeiros estudos, em mestrado na Inglaterra, chegou a professora e orientadora de estudantes de pós-graduação em genética na UFPR. No currículo, constam 165 trabalhos completos e resumos publicados, orientação em quase 20 teses de mestrado, participação em mais de 50 reuniões científicas, além de pesquisas do Conselho Nacional de Pesquisas Científicas e Tecnológicas (CNPQ) entre 1973 e 2000, e membro da diretoria da Sociedade Brasileira de Pesquisa Científica (SBPC).
O trabalho de Eleidi foi pioneiro, uma vez que os estudos sobre o genoma humano só iniciaram depois que muitos cientistas já buscavam explicações para a biodiversidade humana e a composição do DNA de cada pessoa. Hoje, ela e Lupe se concentram em estudos sobre uma enzima (Butirilcolinesterase), cuja função é desconhecida. Já temos indicativos de que algumas variações desta enzima podem levar a maior risco de apnéia prolongada após uso de um relaxante muscular usado antes de anestesia geral, outras levam a maior risco de intoxicação por agrotóxicos, diz.
Os estudos de Lupe dão continuidade a estes conhecimentos. Para sua tese Variabilidade da enzima nos índios guaranis do Mato Grosso do Sul, analisou amostras de sangue de 264 índios, com objetivo de descobrir as origens e miscigenação das tribos. Sei que a universidade passa por uma crise e não tem dinheiro para pesquisas, mas quero continuar neste caminho, dando aulas e estudando mais, diz Lupe.


