São Paulo, 01 (AE) - Em instantes, o caos. A água invade o Túnel do Anhangabaú, no Centro de São Paulo. Desesperados, motoristas abandonam os veículos e agarram-se no que podem. Passageiros sobem no teto dos ônibus. Mulheres são arrastadas pela correnteza que se forma dentro da ligação subterrânea de veículos.
Sem socorro oficial por perto, entra em ação um batalhão anônimo de solidariedade: o pessoal da obra, os mendigos da praça, os perueiros, os motoboys. São eles que, antes da chegada de bombeiros e polícia, salvam as pessoas e arrastam os carros para fora da inundação.
"Meu irmão saiu no meio da água e agora tá perdido, tá perdido", gritava Simone Fontenelle, que escapou de um Monza, engolido pelas águas. Ao seu lado, Miriam Machado chorava e levava as mãos à cabeça. Havia saído de Guararema para distribuir convites de casamento na capital. Agora, temia pela sorte do marido, o empresário Abelardo Machado. "A gente deu as mãos, uns para os outros, e conseguiu sair", contava ela, enquanto procurava o marido. Pouco tempo depois, ele saía das águas, amparado por populares. Emocionado, não conseguiu falar.
De cuecas, óculos, camisa social e celular na mão, o empresário Benedito Massei era o retrato da humilhação. "Saí do carro porque sei nadar", disse. Indignado, lembrava de uma senhora de cabelos brancos que ajudara a salvar. "Estava sendo levada para baixo de um caminhão e na última hora consegui esticar a mão para ela", disse. "Imagina acontecer uma coisa dessas no túnel; o prefeito tem de tomar uma providência para acabar com essa vergonha."
O último a sair das águas foi o empresário Galahad Rebouças. Ele salvou a vida de uma mulher, que se afogava em um redemoinho. "Mergulhei, ergui a cabeça dela e gritei respira, fala comigo!", lembrava. Com massagem cardíaca, ele a fez recuperar os sentidos. "Ele salvou a mulher nas últimas", disse, admirado, o perueiro Ismael Gomes, que fez questão de cumprimentar o empresário com um aperto de mão.

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