Trânsito, rádio, vento, buzina - dependendo da intensidade, a conjunção desses fatores pode tornar o som insuportável para quem dirige. Quando estar na estrada não é opção, mas profissão, o risco é ainda maior - de perda auditiva.
Segundo a fonoaudióloga Luciana Marchiori, professora da Universidade Norte do Paraná (Unopar), motoristas profissionais, seja de ônibus, van, caminhoneiros, taxistas e mototaxistas, estão expostos ao risco da chamada perda auditiva induzida pelo ruído (PAIR). A perda pode variar segundo o tempo de exposição e o tipo de ruído, como vento, trânsito, buzina, rádio, barulho da rua ou da estrada e o som do motor do próprio veículo.
''Há estudos que apontam que dirigir com o vidro fechado gera um ruído de até 85 decibéis, o que é aceitável, mas se há música dentro do veículo, isso já extrapola. Mais ainda se é por um período de oito horas de trabalho, por exemplo. E ainda é preciso considerar o som que se ouve no horário de lazer. Então é bastante difícil mensurar a quantidade de ruído a que se está exposto'', alerta Luciana.
Acima dos 70 decibéis, os sons já podem causar irritação e dor de cabeça. Os primeiros sinais de que há problemas são zumbido, sensação de ouvido tapado, e irritação com os sons. Outro sintoma típico é a queixa de conseguir escutar o interlocutor, mas não entender o que ele diz. O zumbido, no começo, pode ser transitório, mas depois pode ficar permanente, assim como a queixa de não entender o que os outros falam. ''É uma perda irreversível, uma vez instalada. Não há uma perda total da audição, mas na qualidade de recepção do som'', explica Luciana.
Mesmo uma perda leve já causa dificuldade de comunicação, principalmente em ambientes ruidosos, alerta a também fonoaudiologista e docente da Unopar, Juliana Jandre Melo. ''O problema é que, com isso, a pessoa começa a se excluir do convívio social, deixa de frequentar igreja, reuniões, festas, porque não consegue entender o que o outro diz'', afirma Juliana.
A diferença entre o que é um som aceitável até o ponto em que ele se torna um ruído prejudicial também passa pelo ouvido de cada indivíduo. Não se trata de preferência sonora, mas do quanto cada organismo é mais ou menos suscetível a perdas. ''Uns demoram mais, outros menos, para desenvolver perdas. Por isso falamos que para haver perda é preciso exposição diária e contínua e suscetibilidade individual. Doenças como hipertensão, diabetes e tabagismo podem contribuir para isso'', ressalta Juliana.
Diferente de outras categorias profissionais, quem dirige não tem como se proteger utilizando protetores auriculares, pois, por segurança, o motorista precisa ouvir os sons do trânsito. O que se recomenda fazer é minimizar os ruídos, internos e externos. Para isso, as fonoaudiólogas recomendam não usar o rádio dentro do veículo ou não usá-lo sempre, e quando fizer, colocar o volume baixo. Além disso, é interessante manter as janelas fechadas, para minimizar os sons externos, e praticar após o trabalho o chamado ''repouso acústico''.

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