São Paulo, 5 (AE) - Conduzindo pelo bairros de Jundiaí, no interior de São Paulo, a picape D-20, branca, cabine dupla, apelidada de "cata- criança", o motorista e "comissário de menores" Ademir Agiani, de 45 anos, não se comovia com o choro de algumas mães que perdiam seus filhos, geralmente por meio de denúncias anônimas de maus tratos. "Sabia que eram lágrimas de crocodilo", declarou ele à Polícia Federal (PF), no dia 20 de maio. Ele também disse estar à vontade e sem remorsos porque acredita que ajudou as crianças e a sociedade.
A Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Judiciário está investigando as acusações de irregularidades em processos de destituição do pátrio poder e o número supostamente exagerado de adoções internacionais em Jundiaí. Muitas mães reclamam dos métodos de Agiani e de outros subordinados do juiz Luiz Beethoven Giffoni Ferreira, que, até dezembro, comandou o Anexo da Infância e Juventude daquela comarca.
Honestidade - Também não são poucos os que defendem os controvertidos métodos do juiz. D. Amaury Castanho, bispo da Diocese de Jundiaí, disse que Beethoven é honesto e bem-intencionado, mas não é infalível. "Apressando os processos
pode ter ocorrido alguma falha, mas acredito que ele não tirou o pátrio poder de um bom pai ou de uma boa mãe", disse d. Amaury. "Ele é um juiz atípico, muito expansivo, comunicativo e alegre."
O bispo também defende Vitória Teresa Rossi Delfino, assistente social da prefeitura que auxiliava Beethoven. "É uma profissional respeitada na cidade e garantiu-me que os pais eram ouvidos e orientados nos processos", disse.
Vitória foi ouvida a pedido da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Judiciário. Em 21 de maio, ela declarou à PF que os processos dirigidos por Beethoven "gozavam de uma celeridade que foge da normalidade" e disse que o juiz, "por sua natureza, é pessoa bastante dinâmica".
A assistente social contesta o depoimento de Agiani, quando o motorista revela que ela também o acompanhava nas rotineiras visitas a hospitais e maternidades para buscar crianças recém-nascidas e levá-las aos abrigos transitórios. Vitória disse que apenas acompanhava Agiani em diligências para avaliar as condições das pessoas envolvidas nos processos.
Mas a assistente social confirmou à PF que é frequente o fato de mães que acabam de dar à luz em hospitais públicos manifestarem o desejo de abandonar seus filhos, por causas econômicas e sociais. Em Jundiaí, de acordo com ela, isso era mais comum no Hospital São Vicente de Paula.
Quatro auxiliares de Beethoven ouvidos pela PF - a assistente social Vitória, a auxiliar administrativa Maria Luiza Pincinato Accorsi e as escreventes Ana Paula Modesto e Angela Maria de Jesus - confirmaram que Cristiane Lopes arrependeu-se de dar o filho recém-nascido para adoção. Ela deu à luz a Leonardo no dia 27 de novembro de 1997, no Hospital São Vicente de Paula, mas seu arrependimento não foi aceito por Beethoven.
Estrangeiros - Os depoimentos dos auxiliares de Beethoven também revelam alguns nomes de representantes de entidades internacionais credenciadas para acompanhar casais estrangeiros e intermediar adoções em Jundiaí. A alemã Ulrich Pfeiffer (Kika), a chilena Guilhermina, Manoela, Lúcia, Vinícius
Renata e Joana frequentavam o Fórum de Jundiaí. O credenciamento é feito na Comissão Estadual Judiciária de Adoções Internacionais (Cejai).
Agiani disse que "presume que as pessoas que ganham alguma coisa com as adoções para o estrangeiro são as que auxiliam os casais, que essas pessoas tinham contato com Beethoven". Além dos senadores que integram a CPI do Judiciário
as acusações contra Beethoven estão sendo investigadas pela Corregedoria do Tribunal de Justiça (TJ) de São Paulo e pela Procuradoria-Geral de Justiça do Estado, chefiada por Luiz Antonio Guimarães Marrey. Pela lei, Marrey poderá apresentar denúncia contra o juiz, se estiver convencido da prática de crime. O àrgão Especial do TJ, formado pelos 25 desembargadores mais antigos na carreira, ainda não autorizou o início de um processo administrativo contra Beethoven.

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