Albari RosaPara o futuroMarco Aurélio e Lincol: indenização para garantir estudos do menino que perdeu a mãe na cesariana

O motorista de ônibus Marco Aurélio Alves disse ontem que vai entrar na Justiça com uma ação indenizatória contra o Laboratório Cristália, de São Paulo, responsável pela fabricação do anestésico Neocaína, que teria provocado a morte de sua mulher, Margareth, de 24 anos. Alves perdeu a mulher há um ano. Ela morreu no Hospital Nossa Senhora das Graças, em Curitiba, logo após ser submetida a uma cesariana. Margareth deu à luz o garoto Lincol, em 16 de janeiro de 1996, logo em seguida entrou em coma e morreu cinco dias depois.
‘‘Nada vai trazer minha mulher de volta, mas tenho um filho para criar’’, disse Alves. O motorista esclareceu que ainda não definiu valores, não quer indenização para ele, mas quer que o laboratório garanta a educação de Lincol, pagando os estudos até o menino se formar. Ele contou que a princípio não estava pensando em recorrer à Justiça, mas foi convencido pelos familiares. ‘‘Meus pais e os padrinhos de Lincol me convenceram a pedir a indenização’’, contou.
Alves é motorista da empresa de ônibus Cristo Rei, onde ganha R$ 430,00 por mês. Além disso, ele recebe uma pensão da Cooperativa Batavo, onde a esposa falecida era promotora de vendas. A pensão, no valor de R$ 475,00, ajuda a pagar as despesas básicas com o filho.

Outros 45 casos
relacionados com
a substância estão
sendo investigados


Além de Margareth, outras três pessoas morreram no Paraná supostamente vítimas do anestésico: João Paulo Mezzon, de 15 anos, morreu em 25 de janeiro de 1996 no Hospital Santa Catarina, de Cascavel, depois de passar por uma cirurgia para retirada do apêndice; Maria Businato da Costa, de 20 anos, morreu da mesma forma que Margareth, depois de uma cesariana, no Hospital de Itambé, em 19 de maio de 1996; Amailde M. da Silva, de 22 anos, morreu também após uma cesariana no Hospital João de Freitas, em Arapongas, em fevereiro de 1996.
De acordo com o relatório da Secretaria da Saúde, há cerca de 20 outros casos sendo investigados no Estado de São Paulo, 15 no Rio Grande do Sul e 10 no Rio de Janeiro. Laudos do Instituto Adolfo Lutz não provam a relação das mortes com o uso do anestésico. As investigações continuam sendo feitas pelo Instituto Nacional de Controle de Qualidade de Saúde (INCQS), da Fundação Instituto Oswaldo Cruz, do Rio de Janeiro. O Instituto prometeu divulgar os resultados das análises até o dia 30.
O promotor Marco Antonio Teixeira, da Promotoria de Defesa dos Direitos e Garantias Constitucionais, designado pelo Ministério Público para acompanhar o caso, disse que independentemente do resultado das análises, as famílias das vítimas podem pedir indenização. Para isso, basta que o laudo clínico comprove a relação de causa e efeito entre o uso do anestésico e as mortes.
De acordo com o relatório da Secretaria da Saúde do Paraná, ‘‘as investigações apontam fortemente para a existência de nexo causal entre o uso da Neocaína e o aparecimento de sinais neurológicos (como convulsões, cefaléias, com quadro de meningite ou meningismo), de maior ou menor gravidade’’. O promotor disse que ainda não recebeu oficialmente o relatório da Secretaria de Saúde do Paraná.

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