Trabalho, gestação, preconceito e desinteresse pelos conteúdos apresentados em sala de aula estão entre os motivos listados pelos jovens que decidem interromper os estudos. Ex-alunos ouvidos pela FOLHA têm em comum o arrependimento por terem deixado os cadernos em segundo plano.

Antônio Marcelo de Souza, de 24 anos, estava no 2º ano do ensino médio quando deixou a escola na cidade de Juazeiro do Norte (CE) e seguiu para Londrina. Na época, a promessa de emprego como vendedor ambulante no Paraná foi mais atrativa que a sala de aula. "Antes disso, eu já trabalhava na roça e estudava. Eu me arrependo um pouco de ter parado. Às vezes penso em voltar, mas agora acho difícil", comentou Souza que hoje trabalha como eletricista.

Um vendedor que pediu para ser identificado contou que parou de estudar quando cursava a 7ª série do ensino fundamental. O rapaz trabalha desde os 12 anos e, segundo ele, foi vencido pelo cansaço. "Eu trabalhava para ter minha própria renda mesmo, mas a carga horária era complicada. Estudava à noite e comecei a faltar muito. Depois de um tempo, não consegui acompanhar. Agora me arrependo. Todos os cursos profissionalizantes que vi exigem ensino médio", lamentou. Ele pretende se matricular em um supletivo no ano que vem para, no futuro, fazer um curso de eletrônica avançada.

O arrependimento é semelhante ao relatado pelo vendedor Diego Henrique Fortunato, de 24 anos. Ele trabalha desde os 15 e abandonou a escola quando estava prestes a completar o ensino médio. Os pais ainda o alertaram sobre a importância dos estudos. "Era difícil trabalhar e estudar. Nem pensava em faculdade na época. Agora tenho vontade de voltar, mas não sei... Se eu terminasse acho que tentaria Educação Física", disse.

Já um jovem de 20 anos, que é homossexual, deixou a escola porque foi alvo de preconceito. Antes de completar o ensino fundamental, o jovem foi xingado e agredido por outros alunos. "Mudei de colégio e continuou tudo a mesma coisa. Reprovei um ano. Às vezes, quando revidava e brigava ficava uns três dias sem ir para a escola", contou. Ele foi vencido pelas agressões constantes. "Uma vez um rapaz jogou uma garrafinha de água em mim. Depois me deu um murro e eu caí e bati a cabeça. Teve outra vez que um aluno me deu um tapa na cara e eu revidei", relatou.

Ele abandonou a escola e trabalhou com reciclagem por um tempo. Como não completou o ensino fundamental, não teve acesso a muitas oportunidades de emprego. "Nunca achei que pudesse chegar a esse ponto. Agora voltei a estudar na EJA [Educação de Jovens e Adultos] e espero fazer faculdade. A escola deveria ser um lugar de mais respeito", lamentou.

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