Motim faz da Febem um palco de terror
Quatro menores foram mortos pelos companheiros um foi decapitado e teve o corpo queimado; mais de 40 pessoas ficam feridas na rebelião
Marcelo Alves/Agência EstadoTensãoPolicial aponta arma para menores que mantêm colega como refém, durante a rebelião do fim de semanaRobson Fernandes/Agência EstadoTropa de choqueSoldados acompanham menores depois de controlar o motim; mais de 200 foram transferidos para outras unidades
Agências Folha
e Estado
De São Paulo
Descontrole e fúria. Essas são as palavras que resumem o que aconteceu entre o sábado e ontem na Febem Imigrantes (sudeste de São Paulo). O desfecho dessa história envolve cenas de morte, como a de um menor que teve a cabeça decapitada e o corpo incendiado. Ele foi morto por outros menores infratores.
Tudo começou no sábado com uma briga de grupos rivais abrigados em uma mesma ala, após a destruição de uma delas em uma rebelião no começo do mês, segundo a assessoria de imprensa da Febem. Com a briga, os menores tomaram o controle da unidade B, que foi incendiada e destruída. A ala abrigava cerca de 350 menores. Das alas, os menores foram para os telhados da Febem e tentaram fuga em massa.
Na área externa, mães e parentes gritavam. Uns pediam que eles fugissem, outros imploravam para que se acalmassem. Cercados por 350 policiais da Tropa de Choque, os menores rebelados se revoltaram ainda mais. Dos muros da unidade, era possível ver os adolescentes atirando paus e pedras contra monitores e policiais. Pelos alambrados, parentes e policiais também acompanharam uma sessão de 15 minutos de tortura de S.S., 18 anos. Tirem a Tropa de Choque daqui se não vamos matar, avisaram.
S. levou socos, chutes e apanhou com pedaços de telha arrancadas pelos menores. Mantido com um estilete no pescoço, S. só foi solto quando os menores perceberam que a mãe dele, Maria Raimunda da Silva, assistia a cena. Senhora, fica tranquila. Nós já soltamos ele, gritou um menor. A rebelião de sábado só terminou depois que policias reagiram com balas de borrachas e bombas de gás. O saldo foi 15 menores e 14 funcionários feridos.
Um dos menores disse que o que aconteceu depois da rebelião de sábado foi a causa do início da rebelião de domingo. Fomos esculachados, disse. O termo esculacho é usado por menores para descrever supostas surras. A revolta começou por volta das 21h30. Eles assumiram o controle da ala B. Depois, foram para as alas A e C, disse o monitor Roberto Brasil, mantido como refém por 12 horas. No total, segundo o relato de deputados que participaram das negociações com menores, 16 monitores ficaram como refém. Eles apanharam e viram cenas de terror.
Os menores foram mortos com marteladas na cabeça, serrote, porrete. As armas eram o que os menores encontraram pelo caminho, provavelmente na ala que estava em reforma, disse o monitor Roberto Dionízio Carleto, que também ficou como refém. Segundo ele, os menores que foram mortos eram apontados como estupradores e delatores. Nunca vi nada parecido. Carleto disse que conseguiu se livrar porque alguns menores disseram que ele era legal. Outros, segundo Carleto, não tiveram a mesma sorte. Um dos nossos colegas foi totalmente estiletado. Ele foi jogado de um telhado, de uma altura de pelo menos quatro metros.
Até ontem à tarde, quatro mortes de menores tinham sido confirmadas dois corpos estavam irreconhecíveis. Desde sábado, 26 menores e 22 monitores já tinham sido atendidos em hospitais até a tarde de ontem.
Cem menores, de 14 a 17 anos, que participaram da rebelião foram transferidos para as celas do Centro de Observação Criminológica (COC), no Complexo Penitenciário do Carandiru. A transferência foi determinada pelo governador Mário Covas. Outros cem foram para o Complexo Tatuapé da Febem, onde os internos provocaram um princípio de rebelião logo que os menores da Imigrantes chegaram.
O governador Mário Covas disse que não pretende reforçar o policiamento na unidade Imigrantes. A polícia tem mais coisas a fazer que a Febem, que tem quase 5 mil funcionários. Se eu coloco a polícia lá dentro, ou ela entra em choque com as crianças e aí decorre o pior, ou a polícia fica desmoralizada e daí para frente, não segura nada, justificou.





