Motim de 18 horas na Febem termina com quatro mortos
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domingo, 24 de outubro de 1999
Por Gabrieça Carelli, Márcia Vaisman e José Gonçalves Neto, especial para a AE 
São Paulo, 25 (AE) - Quatro menores mortos, dois deles carbonizados. O horror que tomou conta do Complexo Imigrantes da Fundação para o Bem-Estar do Menor (Febem) na maior e mais violenta rebelião já registrada desde o início da instituição teve requintes de crueldade jamais vistos. Um dos corpos queimados teve a cabeça arrancada a pauladas e estava jogado ao lado de uma muralha. Dois monitores mantidos como reféns, depois de espancados fortemente pelos infratores, foram atirados de muros de 5 metros de altura.
O motim começou às 21h30 de domingo, quando cerca de 300 dos 1.200 menores confinados no complexo fugiram, e se prolongou até as 15h30 de ontem. No dia anterior tinha havido outra rebelião na Febem Imigrantes, também violenta. Desde sábado, quando estourou o primeiro motim, 58 pessoas ficaram feridas - 29 menores e 29 funcionários. Dos mortos, sabe-se o nome de apenas dois: A.N.O., de 17 anos, nascido em Osasco, e o paulistano A.D.B., de 15. Os garotos mortos pertenciam ao "seguro" - local onde ficam os delatores ou autores de crimes hediondos, como estupro. Seus corpos estão no Instituto Médico-Legal (IML).
Os dois corpos carbonizados chegaram ao IML central às 19h30, mas continuavam sem identificação. Os monitores atirados dos muros, Manoel Daniel, de 46 anos, e Edimilson João Alves, de 33, foram socorridos no Hospital do Jabaquara, com politraumatismo, e, posteriormente, foram transferidos para o Hospital Santa Cecília. Dois menores em estado grave continuavam sob observação na tarde de hoje: R.R. e F.A.D., ambos de 17 anos. Destruição - Todo o complexo foi destruído com fogo, paus, pedras e enxadas. Com essas mesmas armas, os infratores ameaçaram funcionários e fizeram reféns 15 monitores e 30 adolescentes, que estavam amarrados próximos de baldes com álcool. Segundo eles, se a Tropa de Choque invadisse o local, poriam fogo nos reféns. "Não temos nada a perder", afirmava M.S., de 17 anos. A cada meia hora, uma fumaça preta que vinha dos alojamentos tomava a região. Sinal de que a situação do lado de dentro da unidade continuava muito tensa.
O motivo para a barbárie era desconhecido. Alguns afirmavam ser a greve dos funcionários prevista para amanhã (26)
às 6 horas. Outros diziam ser a superlotação ou até mesmo briga entre grupos rivais. "É uma série de fatores, uma situação dramática que se arrasta desde o Natal passado", argumentou o padre Júlio Lancelotti, da Pastoral do Menor, que acompanhou o tumulto. Choque - A Tropa de Choque chegou ao local às 7h50 e 400 PMs cercaram todo o complexo. As negociações começaram por volta das 9 horas. Os adolescentes exigiam transferências para as unidades Ribeirão Preto e Raposo Tavares. Soltavam os reféns à medida que os ônibus chegavam para buscá-los. Os primeiros ônibus saíram com menores às 9h23. Às 10h20, três reféns foram soltos.
"Era paulada de cano até virar papa", contou o monitor Roberto Brasil, que passou 11 horas como refém. "Eu estava escalado para morrer; não sei como escapei", relatou. "Foi um horror; menor matando menor, barbarizando funcionários". Do lado de fora, o desepero tomava conta dos parentes, que desafiavam a polícia e tentavam derrubar as grades para ter notícias dos filhos.
Por volta das 11 horas, um grupo de pais ameaçou espancar um monitor. "São eles que batem nas nossas crianças", gritava uma mãe. Ambulâncias entravam e saíam da unidade, ao lado de carros da Rota e da Polícia Civil. Sobre os muros, menores mostravam que ainda mantinham com eles reféns e exigiam mais transferências. Foram removidos em quatro ônibus até as 17 horas 243 menores - cem para o Complexo Tatuapé, cem para o Centro de Observação Criminológica do Carandiru (COC), 20 para a Unidade de Raposo Tavares e 23 para a Ribeirão Preto. Bomba de gás - Quando tudo parecia controlado, por volta das 14h10, os menores tomaram a Unidade Educacional 1 (UE-1), onde fica a parte administrativa e áreas de lazer. A tentativa de fuga de um interno da ala A, R.S.A., que pulou a grade do complexo, mas foi recapturado, causou um confronto entre pais e policiais. Um dos parentes atirou uma pedra e detonou uma guerra só apaziguada com bombas de gás lacrimogênio.
Valdenberg Leite de Andrade, vendedor, de 19 anos, que teria atirado a pedra, mostrava os ferimentos nos braços e negou o ato quando encaminhado ao 97.º Distrito. Momentos depois, no mesmo local, outro susto. Menores quebraram o telhado da UE-1 e começaram a atirar telhas nos policiais. A Tropa de Choque entrou na Febem e retirou os adolescentes.
O último refém foi libertado às 15h30 e, segundo as informações da Febem, a rebelião foi controlada a partir desse momento. Mesmo com o encerramento anunciado, por volta das 18h15 os pais revoltados com a falta de informação derrubaram uma das grades de proteção, desafiando a Tropa de Choque, que teve de reagir. A confusão foi controlada rapidamente O presidente da Febem, Guido Andrade, limitou-se a dizer que vê com tristeza a situação, mas ponderou. "Vamos precisar ainda de mais seis meses para dar condições adequadas a esses internos".
Direitos humanos - Para representantes de entidades de direitos humanos, são necessárias medidas de emergência. "O governador Mário Covas não pode esperar mais", disse o deputado estadual Renato Simões (PT), que entrou nas instalações durante o motim. "O Legislativo já deu os meios para que o governo tome atitudes; falta ação". Estopim - Em princípio, a rebelião teria sido desencadeada por causa da greve dos monitores, prometida para amanhã a partir das 6 horas. O motivo para a paralisação era a onda de demissões na categoria e a falta de condições de trabalho. Receosos de que o Tropa de Choque ocupasse o local no lugar de monitores, menores amotinaram-se no sábado iniciando um confronto de quatro horas.
A revolta tomou novas proporções no domingo, quando internos da ala B invadiram a ala A, ateando fogo nos colchões e explodindo botijões de gás. Todas as alas foram destruídas e cerca de mil internos permaneciam rebelados até a tarde de hoje. De acordo com o presidente do Sindicato dos Trabalhadores em Entidades de Assistência ao Menor do Estado de São Paulo, Antônio Gilberto da Silva, a greve foi suspensa, por enquanto. Está prevista para amanhã de manhã uma assembléia para confirmar ou não a paralisação.
Segundo o Comando de Policiamento Militar (Copom), até o fim da tarde de hoje, 25 internos foram recapturados. (Colaborou Flávio Mello)


