Arquivo FolhaSustoO Exército foi chamado para manter a ordem nos estados onde a PM parouO Exército acredita que a ação enérgica do governador do Ceará, Tasso Jereissati (PSDB), poderá encerrar a onda de motins de policiais militares pelo País, iniciada em Minas Gerais. A avaliação foi feita pelo chefe do Centro de Inteligência do Exército, general Gilberto Figueiredo, que, confessou a surpresa do Ciex com a quebra da hierarquia nas PMs. ‘‘Não pensamos que poderia haver uma rebelião’’, admitiu o general, explicando que a área de inteligência do Exército previa problemas de ordem salarial dos PMs, mas não uma revolta. ‘‘Pensamos que a hierarquia pudesse ser mantida pelos oficiais da PM.’ Na opinião dele, houve um desrespeito às normas básicas dos militares que são a hierarquia e a disciplina.
Esta é a primeira vez que um chefe do Ciex concede entrevista. O general Figueiredo afirma que dirige um serviço de inteligência ‘‘transparente’’ e que age exclusivamente ‘‘dentro do lei’’. Portanto, informa: não grampeia telefones, não acompanha reuniões de partidos políticos e, muito menos, infiltra agentes. Há duas semanas, a Comissão de Direitos Humanos da Câmara acusou o Exército de fazer espionagem política clandestina. ‘‘Foi instaurado inquérito para apurar em 30 dias as denúncias’’, disse. Para sustentar que o Ciex não se interessa, como instituição, por questões políticas, o general disse que não faz qualquer avaliação sobre o quadro que poderá ser surgir para as eleições do ano que vem.
O general Figueiredo reconheceu, no entanto, que uma das atribuições do Ciex é o acompanhamento de todos os movimentos sociais do País. Por isso, justifica, tanto o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), quanto a União Democrática Ruralista (UDR), são acompanhados pelo Exército. Ele lembra que os dados colhidos foram absolutamente necessários para que, caso o Exército fosse convocado para manter a lei e a ordem em manifestações das duas entidades, pudesse destacar o número de homens e armamento adequados.
Um exemplo claro da importância desse acompanhamento, conforme justificou o chefe do Ciex, foi a atuação das tropas em Alagoas. Ele classificou a operação como um ‘‘sucesso’’ justamente porque, quando o Exército foi para as ruas, já sabia exatamente onde atuar, como, com quantos homens, com que tipo de equipamento e quais as estratégias a serem adotadas. O trabalho do Ciex, explicou, serve de base para o planejamento das ações e até mesmo assessoramentos de ordem estratégica e tática.
Segundo o general, após a abertura política, o Ciex começou a mudar. O desenho do centro que existe hoje foi traçado a partir de 1991, com a elaboração do Plano de Inteligência do Exército. Este plano prevê o acompanhamento, além de determinados movimentos sociais que atinjam a ordem interna, de questões ligadas ao narcotráfico, ao crime organizado, além de assuntos militares. O general diz que o Ciex não possui mais nenhuma ficha de civis em seus arquivos. Só existem dados catalogados de militares, que são pesquisados, normalmente, em caso de nomeações.
Há muito tempo o Exército estava prevendo uma crise nas PMs. Os motivos, conforme avaliação do general Figueiredo, são vários. O general comentou que, com o fim do controle das PMs pelo Exército, em 1988, que era feito através da Inspetoria Geral das Polícias Militares (IGPM), as polícias deixaram de ser homogêneas. Lembra que, em muitos estados, as nomeações dos comandantes não seguiram mais o critério da antiguidade e competência, passando a serem escolhidos por indicações políticas. Outro problema, na avaliação do militar, é que a Constituição permitiu a criação de associação de PMs, o que, indiretamente, levou os sindicatos para os quartéis. Também deixou de ser controlada a instrução da tropa.
Aliado a isso, se iniciaram também os disparates salariais, com oficiais conseguindo reajustes em seus vencimentos, enquanto a tropa armada ficou ganhando baixos salários. Antigamente, era comum se ouvir um coronel da PM reivindicar isonomia com o coronel do Exército. Hoje, ninguém mais ouve isso porque um coronel do Exército não ganha mais do que R$ 3 mil. Os coronéis das PMs ganham, em média, R$ 5 mil, chegando até a R$ 12 mil.
O chefe do Ciex acha que a mobilização das polícias não contaminará o Exército e insiste que, ‘‘quem tem arma, não pode fazer greve’’. Na sua opinião, com as medidas que o governo apresentará na terça-feira, os movimentos das polícias arrefecerão. Para o general, o fim da crise foi sinalizado pelo governador do Ceará. ‘‘Da mesma maneira que Minas foi um exemplo para que outras PMs a seguissem, o Ceará pode ser um exemplo para que as demais PMs se enquadrem’’, observou.

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