Panamá, 31 (AE-IPS) - A populista Mireya Moscoso, que nesta quarta-feira (01) se converterá na primeira mulher presidente da história do Panamá, enfrentrará um parlamento opositor, divisões na aliança que a levou ao poder e o desafio de cumprir as generosas promessas de sua campanha eleitoral.
A viúva do falecido ex-presidente Arnulfo Arias, opositora ao atual presidente Ernesto Pérez Balladares, prometeu em sua campanha eliminar a pobreza que afeta quase 38% dos 2,8 milhões de panamenhos, revisar a atual política alfandegária e combater a corrupção.
Mas existem dúvidas de que Moscoso persista em tentar revisar a política alfandegária implementada por Pérez Balladares para inserir o país no processo de globalização.
Em janeiro de 1998, Pérez Balladares reduziu todas as tarifas aduaneiras de uma média de 100% para 8,5% com o objetivo de equipará-las com as de outras nações da área e cumprir exigências da Organização Mundial do Comércio (OMC).
A redução fazia parte de um programa implementado em 1994 que incluiu a privatização de empresas públicas, reformas nas leis trabalhistas e tributárias, renegociação da dívida externa e outras medidas econômicas.
Moscoso reiterou na semana passada o compromisso, mas seu futuro ministro de Desenvolvimento Agropecuário, Alejandro Posse, esclareceu que sua promessa "era revisar a política alfandegária", mas que "não se pode falar alegremente de baixar tarifas", como exigem organizações de agricultores.
"Primeiro temos de chegar ao governo para saber o que existe, o que está mal e o que fizeram direito", disse por sua vez o ministro de Economia e Finanças designado, Víctor Juliao, o que difere da radical revisão total prometida por Moscoso.
Este assunto poderia converter-se em uma das primeiras pedras no sapato da presidente e diminuir a importante base social da área rural obtida durante sua campanha.
Moscoso também não poderá, como prometeu em sua campanha, dispor dos US$ 1,365 bilhão arrecadado com a privatização de empresas públicas para ativar um programa de redução da pobreza e do desemprego que afeta 13,4% da população economicamente ativa.
Uma lei aprovada este mês pelo atual parlamento só autoriza o uso dos recursos gerados por esse dinheiro, cerca de US$ 70 milhões ao ano, para programas de desenvolvimento social.
Porta-vozes do Partido Arnulfista (PA), de Moscoso, disseram que essa e outras leis promulgadas nos últimos meses de governo de Pérez Balladares procuram "atar as mãos da presidente" para impedi-la de cumprir seu programa de governo.
O parlamento, considerado no ordenamento jurídico panamenho o primeiro poder do Estado, também não será favorável a Moscoso devido à maioria relativa obtida pelo Partido Revolucionário Democrático (PRD), de Pérez Balladares, nas eleições.
Apesar de Moscoso ter sido eleita com 45% dos votos das eleições de 2 de maio, o PRD obteve 34 das 71 cadeiras do parlamento e precisaria de apenas dois votos para obter maioria absoluta.
O ex-candidato à presidência e atual secretário-geral do PRD, Martín Torrijos, afirmou sábado que seu partido fará "uma oposição construtiva", apesar da atual luta pelo controle da maioria parlamentar entre seu partido e a aliança União pelo Panamá, de Moscoso.
Até a semana passada, o PRD contava com o apoio dos deputados do Partido Solidariedade Laurentino Cortizo e Aidé Milanés. Mas, segundo Milanés, reconsideraria sua posição após uma oferta da União pelo Panamá para que ocupe um alto cargo no parlamento em troca de seu voto.
Mas Torrijos insistiu que seu partido conta com os votos para constituir a maioria e, junto com seus aliados, exercer um controle absoluto do parlamento.
Outra frente aberta contra Moscoso procede de sua própria aliança de governo devido ao descontentamento existente entre alguns dirigentes com a partilha dos cargos públicos e a cota de poder dedicada a cada um pela União Pelo Panamá.
As primeiras discrepâncias surgiram na semana passada, quando Sergio Gálvez, deputado do partido Mudança Democrática, criticou a União pelo Panamá, aliança dominada pelo PA, pelas escassas indicações outorgadas a esse partido. Gálvez ameaçou, inclusive, fazer uma aliança com o PRD em troca de uma cota de poder no parlamento.
Haveria também uma briga entre o presidente da Mudança Democrática, Ricardo Martinelli, e o presidente do Movimento Liberal Republicano Nacionalista (Molirena), Jesús Rosas, pelos cargos prometidos a ambos pela União pelo Panamá.
Apesar de Martinelli guardar silêncio a respeito, Rosas disse que seu partido está em dia com as tarefas acertadas com Moscoso em seu governo, mas que sua organização "aspira a mais posições".
Analistas independentes acreditam que a única possibilidade de evitar que Moscoso fique verdadeiramente de mãos atadas são as negociações iniciadas na semana passada entre o PRD, o PA, Molirena e o opositor Partido Democrata Cristão.
A intenção dessas conversações é estabelecer uma "agenda de Estado" que torne possível a governabilidade do país.
Segunda-feira, Moscoso firmou um "pacto de governo" com os minoritários partidos Solideriedade, Democrata Cristão e Liberal Nacional, em uma tentativa de obter o controle do Congresso. Sua coalizão tem 24 das 71 cadeiras do parlamento, contra 34 da oposição.

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