Mortos em suicídio coletivo em Uganda pode chegar a 47019/Mar, 18:22 Kampala, 19 (AE-AP) - As autoridades ugandenses estimaram hoje (19) que o número de mortos num aparente ritual de suicídio coletivo de um culto apocalíptico na aldeia de Kanungu, na sexta-feira, pode chegar a 470 pessoas, incluindo cerca de 50 crianças. No início falava-se em cerca de 200 corpos. Kanungu fica numa área isolada, 350 quilômetros a oeste da capital, Kampala. Está perto da conturbada fronteira com a República Democrática do Congo (ex-Zaire) e de Ruanda, onde mais de 800 mil pessoas morreram em 1994 no maior genocídio depois da 2.ª Guerra. Os membros do Movimento pela Restauração dos Dez Mandamentos de Deus participaram na quarta-feira de uma festa na sede da igreja, para onde levaram seus objetos pessoais e dinheiro. Vários deles foram a aldeias vizinhas na quinta-feira despedir-se de parentes e conhecidos, disseram testemunhas. No dia seguinte, cantaram durante duas horas, molharam os corpos e o templo com combustível e atearam fogo no recinto. As autoridades suspeitam que muitos dos mortos não sabiam do que ia ocorrer quando foram trancados no templo (cujas janelas e portas estavam vedadas com pregos e pedaços de madeira). Por causa disso e pelo fato de haver muitas crianças entre os mortos, os policiais estão tratando o caso como suicídio e também homicídio coletivo. O líder da seita, Joseph Kibweteere, prognosticara que o mundo acabaria no dia 31 de dezembro de 1999, mas, como isso não ocorreu, adiou a data para o fim de 2000. A polícia não sabe se Kibweteere morreu no incêndio. A igreja tinha caráter pacífico e estava registrada como organização não-governamental. "A cena é horrível. Há só dois ou três cadáveres de que se pode dizer que são homens ou mulheres. Os demais não têm forma humana", afirmou o porta-voz policial Asuman Mugenyi. Ele explicou que os restos ficaram carbonizados e acrescentou que será necessária pelo menos uma semana para obter o número preciso de mortos. "Eles sabiam que iriam morrer no dia 17 porque a Virgem Maria lhes havia prometido apresentar-se no templo de manhã para levá-los ao céu", comentou uma residente de Kanungu. Algumas testemunhas disseram que os dirigentes da seita eram padres e freiras católicos excomungados. Seitas apocalípticas como essa estão proliferando rapidamente na região. Alarmadas, as autoridades tomaram nos últimos meses medidas de caráter repressivo e prenderam dirigentes de cultos suspeitos pelo desaparecimento de várias crianças. Se confirmada a tese de suicídio coletivo, foi o segundo maior da história contemporânea. Só é superado pelo ritual em que morreram 914 seguidores do pastor Jim Jones, em Jonestown, na Guiana, em 1978.

mockup