A Europa está morrendo de frio, no sentido estrito da palavra. Trinta e duas pessoas mortas na Romênia. Onze em Moscou. Trinta e sete na Polônia. Mais de dez na França. Outras na Alemanha, na Itália. Ao todo, em toda a Europa, de 100 a 150 pessoas.
O número real é mais elevado: as estatísticas são descuidadas em certos países, como a Rússia. Além disso, é comum um cadáver, encarquilhado atrás de uma lata de lixo, só ser descoberto alguns dias após sua morte.
Em toda parte temem-se os furores do frio. A França já chegou aos 10 graus abaixo de zero. Na Rússia são 20 e na Polônia, 26.
A hecatombe ocorre num continente rico, a Europa. É uma fatalidade, contra a qual nada podem fazer os governos fracos, um flagelo natural abater-se sobre as regiões muito pobres (o frio entre os esquimós, a fome no coração da África ou a seca no Sahel). O que não é o caso da Europa: potência financeira, densidade de infra-estrutura, administrações geridas por cabeças de primeiro plano, tudo existe para resistir à violência das coisas, do céu, dos ventos.
No entanto, em pleno centro da capital do luxo, como, por exemplo, Paris, os pobres morrem de frio. De manhã, seus corpos inertes são recolhidos nas ruas, como os de pardais extintos.
É bem verdade que repugna aos pobres solicitar ajuda ou abrigo aos organismos oficiais. Até mesmo nas noites mais geladas há leitos disponíveis nos asilos. Como, então, explicar a tragédia?
Em parte, pela resignação, pelo desencorajamento que nos leva a falar de ‘‘suicídio pelo frio’’, tal como em outras partes do globo se fala do ‘‘suicídio pelo fogo’’. De outra parte, a desconfiança do fora-de-lei, do marginal, do solitário, em relação a toda sociedade, a toda organização.
Há os que nem querem procurar abrigos, temerosos de ter sua identidade comunicada à polícia. E, afinal, há os que acham melhor dormir em suas caixas de papelão por dignidade: preferindo a morte à piedade.
Diante do horror, o que fazem os poderes públicos? Sua primeira providência é o espanto: ‘‘Vejam como está frio! É preciso fazer alguma coisa para socorrer essa pobre gente!’’ Terminado o espanto, passam às ações, abrindo as estações de metrô desativadas. À noite, patrulhas procuram os pobres, tentando conduzi-los a abrigos. Inicia-se a distribuição de cobertores, café, sopas quentes. Cria-se a ocasião de se lavar, barbear, o que ajuda conservar a dignidade.
O esforço é inegável. Por outro lado, convém não ‘‘fazer demais’’. Sem confessá-lo, as autoridades não querem ajudar demais, temendo que isso se torne um incentivo aos que não têm ‘‘domicílio fixo’’. De acordo com um pensamento comum, quando se trata de países pobres: ‘‘Evitar a ajuda financeira excessiva, para que os que já não trabalham muito não passem os dias dormindo!’’ Infelizmente, esse tipo de pensamento não é de todo infundado.
Mas, também, ao que parece, a responsabilidade dos poderes públicos só existe nos tempos de emergência, de crise aguda, de grande frio. O escândalo é tanta gente, em países opulentos como a França ou a Alemanha, ser deixada à margem do caminho. O escândalo é a economia européia fabricar tantos estropiados, tantos feridos, tantos massacrados e inaptos.
O frio só golpeia os abandonados pela sociedade, os que foram despedidos de seus empregos, de seus lares, os que há anos procuram uma ocupação, por mais modesta que seja. É nesse nível, mais do que nos das providências urgentes, que os 150 cadáveres colhidos nas belas ruas da Europa fazem um julgamento impiedoso do egoísmo das sociedades adiantadas.France Presse20 graus negativosPraça Vermelha, em Moscou. Rússia contabilizou 20 mortosGilles Lapouge

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