Há um ano, as mães de Kelvin Willian Vieira dos Santos, 16, e Wender Natan da Costa Bento, 20, não conseguem dormir direito. Em 15 de fevereiro de 2025, os dois saíram de um lava-jato, no Jardim Nossa Senhora da Paz (zona oeste), conhecido como favela da Bratac, onde trabalhavam, para comprar bebidas em uma distribuidora do Jardim Santiago, bairro vizinho. Após deixarem o local, foram perseguidos por uma viatura da PM (Polícia Militar) e mortos a tiros.

Até aqui, o resumo da ocorrência é consenso entre ambas as partes, porém, depois disso, criou-se uma guerra de narrativas entre familiares que abominam um suposto excesso da polícia e agentes que afirmam ter agido em legítima defesa.

Em 24 de abril, pouco mais de dois meses após as mortes, o IPM (Inquérito Policial Militar), feito pela PM de Maringá (Noroeste), apontou que Julio César da Silva, Luiz Ricardo Monteiro da Silva, Jeferson Fontes Longas e Gabriel Ferreira de Lima Bosso, os quatro policiais militares envolvidos no suposto confronto, agiram em legítima defesa. Eles voltaram a trabalhar nas ruas. Entretanto, imagens de câmeras de segurança, divulgadas pela RICtv, levantaram dúvidas sobre as versões apresentadas pelos policiais.

Inquérito da Polícia Civil

Paralelamente, a Polícia Civil instaurou outro inquérito para apurar a conduta dos PMs. Com cada vez mais laudos e provas surgindo, as investigações foram se arrastando. Atualmente, o processo corre em segredo de Justiça, o que, de acordo com o MPPR (Ministério Público do Paraná), foi um pedido das próprias famílias. A advogada das mães de Kelvin e Wender, Iassodara Ribeiro, atua como assistente de acusação do MPPR, órgão responsável pelo caso.

Segundo ela, todos os pedidos feitos foram acatados pelo MPPR.

Para a advogada, a morosidade está nas investigações da Polícia Civil, que, quando não consegue apresentar os resultados dos laudos nas datas estipuladas, pede a prorrogação dos prazos.

Somente com o encerramento do inquérito a promotoria poderá decidir se denunciará ou não os policiais envolvidos. A acusação, segundo Ribeiro, conta com a perícia dos corpos e com as imagens para contrapor a versão levada em conta no IPM.

‘Estamos cansadas dessa demora’

A reportagem esteve nesta quinta-feira (12) na casa de Vanessa da Costa, mãe de Wender, para ouvi-la sobre o andamento do processo. Ela e Sirlene Vieira, mãe de Kelvin, dizem não aguentar mais a demora para a resolução do caso. De acordo com Vanessa, as datas proteladas são uma constante tortura.

“Agora que estava para chegar [a data], o promotor pede mais dois meses. É um luto que a gente não consegue viver. Queremos justiça!”, desabafa. “Achamos que ia durar três ou seis meses, mas já faz um ano. Pelo que sabemos, o prazo para o resultado final é em abril, se eles não pedirem mais tempo. É uma aflição muito grande.”

Imagem ilustrativa da imagem Mortes de jovens em ação da PM completam um ano
| Foto: João Guilherme França da Silva

A mãe de Wender, jovem que morreu após receber 13 tiros, relata que, desde o dia que soube da morte do filho, não consegue aproveitar momentos em família.

“Às vezes queremos fazer algo, mas não conseguimos nos reunir como antes. Lutamos tanto, mas a sensação é de nadar, nadar e morrer na praia. Enquanto esses policiais não forem denunciados, não poderemos fazer nada”, diz.

‘Não caí na real ainda’

Sirlene afirma que a fase de negação não passou. Ela ainda pergunta o porquê da morte do filho e tenta encontrar alternativas para assimilar a dor, que, para ela, nunca passará.

“Na primeira semana, eu ficava me questionando se ele ia aparecer, porque não caí na real ainda. Por que o Kelvin? Não que teria de ser outro. Não teria que ser ninguém naquele momento. Acho que eles [os PMs] não queriam pegar o Kelvin, mas sim um bandido. Eles confundiram os nossos filhos.”

Câmeras de segurança

Sirlene tem esperança que as imagens de câmeras de segurança próximas, que foram anexadas ao processo, possam influenciar no resultado do inquérito.

“As imagens são muito importantes para a gente, porque elas mostram que quando eles saem da distribuidora, os policiais os seguem. Nas imagens, dá para ver que o policial não manda ninguém parar. Primeiro eles atiram e depois falam”, explica.

Represálias e intimidações

Vanessa conta que alguns policiais envolvidos nas mortes dos jovens voltaram ao bairro para, segundo ela, intimidar os familiares. Além disso, relata que moradores passaram a sofrer represálias financeiras.

“Nos primeiros meses, eles vinham aqui e levavam as motos e os carros. Mandavam o guincho levar. Levamos multa. Havia casos de policiais batendo nos jovens, xingando e ameaçando. Os PMs que executaram o Wender e o Kelvin passam aqui no bairro e olham a gente com cara feia. Debocham. Olham como se a gente tivesse tirado alguém da família deles, mas foram eles que tiraram uma pessoa importante da gente”, diz.

Sirlene compartilha do mesmo medo. Para a mãe de Kelvin, o problema ultrapassa a situação que envolve o seu filho. De acordo com ela, o preconceito das autoridades é histórico e tem relação direta com a formação da “favela”.

“Quem mora na favela não tem liberdade. Temos medo dos filhos serem executados. Todos os favelados, negros, pretos e pobres são discriminados. Se fossem da Gleba, ou de qualquer outro lugar, esses jovens não estariam mortos. Não é porque moramos na Bratac que somos bandidos. Em todo lugar há pessoas boas e pessoas ruins.”

Para advogado dos PMs, acusações dos familiares são ‘factóides’

O advogado Eduardo Miléo, responsável pela defesa dos quatro policiais envolvidos, afirma, em entrevista ao Portal Bonde, que os relatos de Vanessa e Sirlene não passam de “factóides”, que estariam sendo usados para atrapalhar as investigações.

“Isso é um factóide que a família e o crime organizado da Bratac trazem. Eles contaram que foram retiradas amostras das mãos desses homens, mandadas para o Instituto Nacional de Criminalística da Polícia Federal e foi encontrada pólvora?”, questiona.

Segundo ele, o delegado que cuida do caso pediu às mães a liberação dos celulares dos jovens, o que teria sido negado por elas.

“Já que eles estavam indo para uma festa, não eram envolvidos com o crime, posso abrir o celular deles? Sabe o que disseram as mães? “Não”. Elas criam factóides e problemas para a defesa. Mas quando o delegado pede para abrir o celular, elas dizem que não precisa abrir.”

Miléo nega veementemente que os seus clientes tenham passado pelo Jardim Nossa Senhora da Paz após a noite do suposto confronto.

“Os policiais envolvidos diretamente nunca mais passaram pela Bratac por ordem do comando [da PM]. Outros policiais vão, porque não é o crime organizado que vai dizer se um policial pode ou não pode passar pela Bratac”, afirma, esclarecendo que o suposto policial citado pelas mães está trabalhando na área administrativa, sem ter contato com as ruas.

Sobre as imagens de câmeras de segurança, Miléo destaca que elas corroboram com tudo o que foi relatado até o momento pelos agentes de segurança.

“As imagens comprovam exatamente aquilo que os policiais disseram. As famílias contam várias mentiras. Elas falam que eles não tinham dinheiro para comprar armas, mas, no dia, eles haviam gastado mil reais em bebidas. Está nos autos.”

O advogado ainda levanta suspeitas sobre o lava-jato que Wender havia adquirido duas semanas antes do suposto confronto. De acordo com ele, o local era utilizado como armazenamento de produtos roubados.

As mães relataram à reportagem que o perito que analisou o caso disse que a pólvora encontrada nas mãos de Wender e Kelvin pode ser resultado de tiro à queima roupa. Sobre as bebidas, disseram que os jovens fizeram “vaquinha” para chegar ao montante. A mãe de Wender também esclareceu que ele tinha curso para trabalhar como lavador de veículos.

Nota da Sesp

Procurada pela reportagem, a Sesp (Secretaria Estadual de Segurança Pública) informou, por meio de nota, que o inquérito referente ao caso segue em andamento e aguarda a conclusão de laudos periciais para sua finalização. Segundo a secretaria, a apuração ocorre dentro dos trâmites legais, com acompanhamento do Ministério Público e do Poder Judiciário.

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