Morte John-John comove a França Do correspondente Gilles Lapouge
Paris, 19 (AE) - Todos os ensanguentados reis das peças de Shakespeare, todas as figuras dilaceradas da família grega dos átridas (Eletra, Egisto, Orestes, Clitempestra e dez outras) foram recordadas, a título de reforço, desde a noite de domingo, pelos jornalistas franceses incumbidos de relatar a morte de John-John Kennedy.
O que vale dizer que o romantismo jorrou tanto na França quanto nos Estados Unidos e que os artigos dedicados ao filho de John Fitzgerald Kennedy não pecam pela contenção e pela sobriedade: "Filho de príncipes... rei maldito, o ciúme dos deuses... etc".
A grandiloquência corre aos borbotões. O que não deixa de ser legítimo. Afinal, a dinastia daqueles que foram "os mais belos, os mais generosos, os mais inteligentes" da América não acaba de ser exterminada pelo céu e pelo mar unidos, na pessoa do garotinho que, em 1963, saudava militarmente o catafalco no qual jazia seu pai?
E, a bem dizer, a comparação com a princesa Diana, outra "cover story" da beleza, da glória e do dinheiro, se expressa em todos os escritos. E nem poderia ser de outro modo. O mesmo destino de dois "monarcas sem coroa". Porém é forçoso reconhecer que a morte de Diana fez rolar lágrimas francesas mais abundantes do que a de John-John.
Diana era européia, familiarizada com os sírios de graça e de beleza da França, além de ser ainda mulher emocionante, gozando da reputação de simpatizar com os necessitados. John-John, pelo contrário, era o arquétipo do norte-americano, cercado por toda panóplia chique da beleza, do dinheiro, do modernismo, portanto um estranho quanto às nostalgias francesas.
E mais: mesmo que todas as virtudes dos Kennedy se reunissem em John-John, ele não se destacara senão por sua nascença e depois pelo casamento com uma mulher muito bela, o lançamento de uma revista luxuosa e os hábitos de um patrício da Nova Inglaterra.
Se na França existiu fascínio por algum Kennedy este se deveu ao pai de John-John, o presidente assassinado ainda na juventude e em circunstâncias obscuras. (De Gaulle estava convicto de que o inquérito sobre o assassinato em Dallas silenciou deliberadamente a identidade dos mandatários, a fim de evitar a eclosão de uma nova guerra entre o Sul e o Norte dos Estados Unidos.)
Até mesmo a pessoa do mais prestigioso dos Kennedy, John Fitzgerald, sofreu rudes golpes no decorrer de quarenta anos. O que não se deveu à bulimia sexual do marido de Jacqueline Kennedy - pois que, afinal, as amadas de Kennedy invocavam sonhos maiores do que Monica Lewinsky. Mais por causa das revelações divulgadas no decurso dos anos sobre o cinismo do clã Kennedy, de Joseph até John Fitzgerald e seu irmão Robert, com vistas a garantir o poder.
Lembramo-nos de como o pai, Joseph, conseguiu, na quinta-feira negra de 1929, ganhar 15 milhões de dólares especulando sobre a baixa na Bolsa. Lembramos ainda que, ao ser nomeado por Roosevelt como membro da Comissão de Controle da Bolsa, o semanário "Newsweek" constatou amargamente: "Joseph Kennedy, antigo especulador e membro de associações de agiotas, será pois incumbido de combater a especulação." (Para completar o retrato: durante a guerra Joseph demonstrou simpatia pelo nazismo, sem dúvida por causa de anti-semitismo).
Mesmo que o presidente Kennedy não seja suspeito de atitudes tão desavergonhadas, isso não impede que sobre ele paire a idéia de não ter sido "tão branco quanto a neve".
Em compensação nada há que censurar no falecido John-John. Ele se manteve distante do circo político no qual sua dinastia se chamuscou tantas vezes e tão gravemente. Não teria sido, portanto, belo, sedutor, gentil?
E, de outra parte, John-John possuía alguns traços que sensibilizam os franceses: sua mãe, Jacqueline Bouvier, era francesa. E mesmo que não visitasse a França com frequência; é nesse país que a família Kennedy já foi vitimada: Kathleen Kennedy, irmã de John Fitzgerald e filha de Joseph, morreu na França em 1948, já naquele tempo em consequência de um acidente aéreo.
E assim, mesmo que a morte de John-John não provoque as torrentes de lágrimas que fluíram na morte de Diana, uma profunda emoção aqui se instalou desde hoje, no momento no qual o país mais republicano do planeta assiste à partida de um dos últimos representantes de sua "família real".





