Nova York, 07 (AE) - Em 1949, aos 33 anos, Arthur Miller, uma das mais brilhantes revelações da dramaturgia americana da época, recebia o total de três Tonys, o prêmio equivalente ao Oscar da Broadway, pelo seu texto A Morte do Caixeiro Viajante: melhor peça, diretor (Elia Kazan) e ator coadjuvante (George Kennedy).
Durante a noite de domingo, a da 53ª edição do Tony, Miller, hoje com 83 anos, subiu ao palco do teatro Gershwin, no centro de Manhattan, para receber um prêmio especial pelo conjunto de sua obra. Em seu discurso de agradecimento, o dramaturgo expressou sua esperança de que ocorram mudanças no teatro para que "uma nova geração de dramaturgos ferozmente ambiciosos, mais uma vez, encontre receptividade para suas grandes e desafiadoras peças, em algum lugar a oeste de Londres e a leste do Rio Hudson".
Além de seu prêmio especial, Miller viu, 50 anos mais tarde, a repetição do êxito de A Morte do Caixeiro Viajante. Seu texto, uma análise sobre um homem traído pelo sonho americano, foi o grande vencedor da noite ao receber quatro estatuetas, as de melhor peça (revival), ator (Brian Dennehy), atriz coadjuvante (Kristin Chenoweth) e diretor (Robert Falls).
O discurso do dramaturgo fazia sentido especial no domingo. Miller estava acompanhado por poucos textos desconhecidos. Prometendo brilhar neste Tony também, enfileiravam-se obras de Eugene ONeill (The Iceman Cometh), Sofócles (Electra) e Tennessee Williams (Not about Nightingales), todas esnobadas nas categorias em que competiam.
Dos textos contemporâneos, surgiu uma das maiores surpresas da noite. Sideman, do americano Warren Leight, peça que recria as memórias de um músico de jazz e sua desintegrada família, ficou com o prêmio de melhor nova peça, derrotando as produções inglesas Closer, de Patrick Marber (texto sobre obsessão sexual a ser montado no Brasil por Renata Sorrah), The Lonesome West, de Martin McDonagh (autor que no ano passado recebeu o Tony nesta categoria por The Beauty Queen of Leenane) e Not about Nightingales, peça sobre prisioneiros nas mãos de um sádico funcionário de penitenciária, que Williams escreveu aos 27 anos, antes de alcançar o sucesso com Um Bonde Chamado Desejo. A peça ficou perdida até recentemente quando a atriz Vanessa Redgrave descobriu o texto e deu para que seu irmão Corin a encenasse.
Segundo a crítica, Side Man, de Leight, estaria ocupando um vaga que, por direito, pertenceria ao espetáculo Via Dolorosa, um tour de force de dramaturgia e fluxo jornalístico escrito e interpretado pelo inglês David Hare sobre a situação atual de Israel. Hare, responsável por dois outros eventos teatrais do ano, Amys View, com Judi Dench, e Blue Room, com Nicole Kidman, teria sido preterido na premiação por causa de um sentimento antibritânico existente entre os membros da Liga Teatral Americana, que distribui o Tony.
Para ajudar, os produtores da peça, esperta e ruidosamente, basearam a plataforma de sua campanha no fato de Side Man ser o único texto americano concorrendo ao prêmio a ter seu autor vivo. Side Man, que vive uma fase de ingressos em baixa, recebeu também o prêmio de ator coadjuvante (Frank Wood). Há duas semanas, depois da saída de Christian Slater do papel do narrador da história, Scott Wolf, a sensação do seriado de TV O Quinteto e do filme Vamos Nessa (Go!), novo e ultraviolento híbrido de Tarantino, assumiu a posição.
Se David Hare foi esnobado triplamente, uma de suas musas da temporada, Judi Dench, a mulher mais elegante de toda a premiação, subiu ao palco do Gershwin Theater para receber seu prêmio de melhor intérprete feminina do ano pela atriz - e seu embate com a filha - que interpreta em Amys View. Como na cerimônia do Oscar, quando recebeu o prêmio de coadjuvante pela rainha Elizabeth I, de Shakespeare Apaixonado, Judi, que está voltando à Broadway após 40 anos de ausência, cumprimentou também suas excelentes concorrentes, Zoe Wanamaker (Electra), Stockard Channing (O Leão no Inverno) e Marian Seldes (Ring Round the Moon). "Novamente, ganhar não é a melhor parte, ser indicada é que é", discursou Judi.
Na categoria mais competitiva da noite, a de melhor ator, Brian Dennehy derrotou o outro grande favorito, Kevin Spacey, de The Iceman Cometh. Em 1988, Dennehy, mais conhecido por sua participação no filme A Barriga do Arquiteto, de Peter Greenaway, não pôde ser indicado ao Tony por sua aclamada participação na montagem de Peter Brook para O Jardim das Cerejeiras, último texto de Chekhov, por ter-se apresentado somente no Brooklyn. Dois anos mais tarde, em Chicago, Dennehy também interpretava o mesmo personagem de Spacey na peça de ONeill, o bateirista Hickey.
Entre os musicais, Fosse, uma colagem das coreoragrafias de Bob Fosse, foi o vencedor da noite, levando três prêmios, os de melhor novo musical, iluminação e orquestração. Seu grande concorrente, Parade, ficou com os Tonys de trilha sonora original e libreto, assinado por Alfred Uhry, o autor de Conduzindo Miss Daisy e The Last Night of Balyhoo, peça premiada com o Tony em 1997. Fosse e Parade foram respectivamente produzido e co-produzido pela empresa canadense Livent, cujo dono atualmente luta contra a extradição, uma vez que a Corte Federal de Manhattan o indiciou num processo por fraude.
Na categoria de revival, Annie Get Your Gun ficou com o Tony de melhor peça e o de atriz para Bernadette Peters, que assumiu o papel consagrado no cinema por Betty Hutton, no filme Bonita e Valente, de George Sidney (1950). Bernadette já havia vencido a mesma categoria em 1986 com o musical Song & Dance, de Andrew Lloyd Wever. Martin Short ficou com o prêmio de melhor ator de musical por sua participação na já encerrada temporada de Little Me. Ao apresentar um número do musical no domingo, seu microfone portátil falhou.
O inglês Matthew Bourne conquistou os prêmios de melhor coreografia e direção de musical por sua polêmica versão só com bailarinos para O Lago dos Cisnes. O conselho do Tony não considerou o espetáculo como musical, mas deu a estatueta de direção a Bourne. A surpresa das categorias restantes ficou com a vitória de Richard Crooner, de Not about Nightingales, como melhor cenografia. Crooner bateu o favorito Bob Crowley, duplamente indicado pelos cenários de Noite de Reis, de Shakespeare, e The Iceman Cometh. Em seu discurso, o cenógrafo desejou que ninguém mais do elenco se machucasse nesta temporada. Há duas semanas, a atriz Sheri Parker Lee denunciou ter sido esbofeteada de verdade em cena pelo ator Finbar Lynch, que concorria ao prêmio de coadjuvante.
Sem a presença da mestre de cerimônias Rosie ODonnell, que já havia anunciado sua ausência do Tony deste ano, a apresentação ficou por conta de famosos como Kevin Kline, Matthew Broderick, William Hurt, Swoosie Kurtz, Christian Slater, Chita Rivera, Judi Dench, David Hare, Carol Burnett, Angela Lansbury, Julie Taymor, Alan Cummings, Alec Balwin e Julie Andrews, entre outros. Julie Andrews, que segundo boatos vinha vivendo a tragédia da perda da voz, depois de uma operação das cordas vocais, cantou ao lado de Carol Burnett trechos da música Putting Together. Uma vez que ela não tentou alcançar as notas mais altas, a dúvida sobre a voz da eterna Mary Poppins continua a existir.

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