Revolta e indignação marcaram ontem o enterro do assentado Sebastião da Maia, 38 anos, em Querência do Norte, região Noroeste do Paraná. Conhecido como Tiãozinho, ele era um dos coordenadores do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) na região. O movimento afirma que ele foi morto por ‘‘pistoleiros’’ que faziam a segurança da Fazenda Água da Prata, reocupada anteontem. Cinco dos dez homens que cuidavam da área foram presos anteontem com armas pesadas.
A morte de Maia trouxe ao Paraná o ouvidor agrário nacional, José Gersino da Silva Filho, que de tarde percorreu a região e conversou com sem-terra e assentados. ‘‘Vamos agir com rigor para identificar a punir o executor e os mandantes’’, garantiu Silva. Enviado pelo ministro da Reforma Agrária, Raul Jungmann, o ouvidor disse que o governo está ‘‘preocupado’’ com as armas utilizadas na região. Maia foi morto com um tiro de espingarda calibre 12 na cabeça. ‘‘Reconhecemos o clima de tensão na área e o uso de armas pelos fazendeiros’’, confessou Silva.
O ouvidor adiantou que pretende também acionar o Judiciário, para retomar as investigações sobre a morte de Eduardo Anghinoni, irmão de um dos líderes do MST na região, Celso. Anginhoni foi morto na casa do irmão, no assentamento Pontal do Tigre, há quase dois anos. A polícia chegou a prender acusados, mas não existe comprovação da autoria do crime. ‘‘Queremos a punição dos culpados para evitar mais tensão social na região’’, disse Silva. Ameçado de morte por outras investigações que faz, o ouvidor estava acompanhado de seis agentes da Polícia Federal.
A mulher de Maia, Adelina Ventura, disse à Folha que o marido era perseguido por policiais e por ‘‘jagunços’’. Ela confirmou que durante a desocupação da Fazenda Rio Novo, em maio do ano passado, policiais do Grupo de Operações Especiais (GOE) entraram no acampamento procurando por Tiãozinho. Ela e o marido são de Santa Catarina, estão na região há três anos e foram para o Assentamento Chico Mendes há cerca de 90 dias. ‘‘Ninguém mais suporta esta estratégia do governo’’, desabafou Roberto Baggio, coordenador estadual do MST, que acompanhou o enterro de Maia.
Baggio acusa o governo de colocar a estrutura do Estado a favor do latifundiário. ‘‘Estão até usando o cadastro do Incra para procurar os coordenadores’’, disse. O coordenador afirma: ‘‘O governo deixou de perseguir para destruir fisicamente as lideranças.’’
Cerca de 150 assentados e sem-terra acompanharam o enterro com faixas criticando a política do governo estadual para a reforma agrária. Antes do enterro a mãe de Maia, dona Madalena, ofereceu a morte do filho aos companheiros. ‘‘Se você não tivesse valor esse pessoal não estava todo aqui’’, disse.

mockup