Morte de índio pode ter sido premeditada
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 22 de abril de 1997
Das agências, de Pau Brasil e Brasília 
José Paulo Lacerda/Agência Estado
(Não é permitida a reprodução total ou parcial desta foto dentro ou fora do Brasil)
Amargo retornoO índio Tsumi-Abhoody observa soldado arrumando caixão com o corpo de Galdino de Jesus Santos, durante embarque do corpo em um Búfalo da Força Aérea Brasileira para Ilhéus (BA), na Base Aérea de Brasília. Índios com roupas de palha e o corpo pintado para a guerra receberam o corpo e protestaram dançando, ainda na estrada que no sul da Bahia liga Camacã a Pau Brasil Revolta e tristeza dominaram os índios pataxó Hã-Hã-Hãe, ao receberem ontem o corpo de Galdino de Jesus Santos, 44 anos. Com roupas de palha e o corpo pintado para a guerra, um grupo protestava dançando ainda na estrada que no sul da Bahia liga Camacã a Pau Brasil. Às 14h30, o cortejo chegou à aldeia Caramuru Catarina Paraguassu, e foi recebido com lágrimas e pedidos de justiça. Em Brasília, a polícia trabalha com a hipótese de que o crime praticado pelos cinco rapazes na madrugada de domingo, quando atearam fogo no índio pataxó, pode ter sido premeditado.
O corpo de Galdino chegou em um Búfalo da Força Aérea Brasileira às 11h45 no Aeroporto de Ilhéus, a 157 quilômetros da aldeia. Duas representantes da Polícia Rodoviária Federal, responsável pelo cortejo, entregaram flores ao pai de Galdino, Juvenal Rodrigues Pataxó, de 64 anos. Muito abatido, Juvenal não escondia a emoção. É muito triste, mas vamos continuar lutando, adiantou. Morre um, vem outro. Os pataxó acreditam que a alma de Galdino resistirá à morte, e será incorporada à de outros líderes, para que tenham força na luta pela demarcação de terras.
Ao despontar nas proximidades da aldeia, os quatro carros da Polícia Rodoviária Federal foram recebidos por um grande grupo de índios, vestidos para a guerra, mas com uma expressão de tristeza. Que sofrimento, meu Deus. Por que fazem isso comigo?, gritava Sebastiana, que, nervosa, não aguentou esperar e correu para o caixão do primo. O caixão foi levado para uma parte coberta da aldeia. Os pais de Galdino tiveram um encontro emocionado. Juvenal e Minervina Maria de Jesus nada falaram. Apenas choraram juntos, abraçados, por mais de dez minutos. Aos 58 anos, Minervina sofre do coração e já viu 11 de seus 20 filhos morrerem. Seis enquanto bebês, outros três ainda na infância, além de João Cravim, de 29 anos, assassinado numa emboscada por fazendeiros, em 1988, e, esta semana, teve que enfrentar a perda de Galdino.
Também abraçadas, permaneceram a esposa de Galdino, Genilda Rosa Campos, e suas três filhas do casamento anterior, Cleide, Luciene e Maria Aparecida. Havia apenas um ano e meio que Genilda passou a viver com Galdino. Não sei o que fazer. Ele era um homem tão bom, disse ela, explicando que não acreditou que o marido tinha sido queimado vivo, como insistia em informar uma rádio no domingo. Eu não acreditei; pensei que não era verdade, nem mesmo quando a televisão mostrou, disse ela, chorando. Só quando vi a notícia no jornal, com uma foto dele, é que acreditei.
Investigação - Ontem, o delegado Walmir Alves de Carvalho, titular da 1ª Delegacia de Polícia de Brasília, responsável pelo caso, disse que está tentando localizar o frentista de um posto de gasolina onde os jovens teriam comprado dois litros de álcool combustível, pouco antes de seguirem para a avenida W-3 Sul, onde atacaram o índio. Isso agrava a situação deles, pois caracteriza que o crime teria sido premeditado, explicou o delegado.
O delegado Walmir Alves de Carvalho anunciou que o inquérito estará concluído na sexta-feira, quando remeterá o processo à Corregedoria de Polícia. A Corregedoria, por sua vez, entregará o processo à Justiça do Distrito Federal, que o distribuirá para o Tribunal de Júri. O delegado informou que os cinco envolvidos no caso - Antônio Novély de Vilanova, Eron Chaves Oliveira, Thomaz Oliveira Almeida e seu irmão, o menor G.N.A.J., além de Max Rogério Alves -, serão denunciados à Justiça.
Walmir Carvalho já trabalha com a possibilidade de os acusados obterem habeas corpus. Segundo ele, já chegaram informações de que os advogados que trabalham no caso estariam preparando um pedido. O delegado não acredita, no entanto, que algum juiz conceda este tipo de liminar, já que ficaria contra toda a sociedade. O delegado não quis adiantar com base em qual dispositivo legal os advogados dos acusados poderiam conseguiriam a liberdade provisória dos cinco.
Algumas pessoas ainda serão ouvidas antes de o processo ser concluído. O delegado informou que, além do frentista, será ouvida a dona da pensão Vera Moreti, que poderia ter se negado abrir a porta para o índio Pataxó entrar.


