No sábado (21), a religiosa Irmã Nádia Gavanski, de 82 anos, foi morta por asfixia no pátio da Paróquia Católica Ucraniana Sagrado Coração de Jesus, em Ivaí, no interior do Paraná. Conforme o registro oficial da Polícia Militar e os autos da Polícia Civil, o autor do crime, um homem de 33 anos que afirmou estar sob efeito de crack e álcool, pulou o muro da propriedade por volta das 13h30 e atacou a vítima enquanto ela alimentava animais. O suspeito foi preso em flagrante após ser identificado por uma testemunha e confessar a autoria às autoridades, alegando ter agido motivado por "vozes".

SILÊNCIO SOB O SOL

Para chegar a Ivaí partindo de Londrina, é preciso atravessar o estado como quem atravessa uma zona de transição. São cerca de 255 quilômetros rumo ao sul, percorrendo a Rodovia Celso Garcia Cid até o encontro com a BR-376.

Situada a pouco mais de 200 quilômetros de Curitiba e vizinha de cidades como Prudentópolis, Ivaí não é um destino de cartões-postais ou cachoeiras exploradas pelo turismo de massa. A cidade, de pouco mais de 13 mil habitantes, preserva uma discrição quase fechada. É um lugar de nomes repetidos nas fachadas do comércio e sobrenomes que se cruzam, geração após geração, nas lápides do cemitério local. Ali, a economia gira em torno da terra e das cooperativas como a Cocari, seguindo os ciclos previsíveis de plantio e colheita. Mas sob essa regularidade agrícola pulsa uma herança ucraniana que atravessou continentes e séculos. Ela molda as cúpulas das igrejas, os ritos litúrgicos e o cheiro do pierogi nas cozinhas. Ali, o silêncio não é ausência de som, mas sim um acúmulo de histórias não ditas que desaceleram o tempo na brisa de suas matas.

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| Foto: Divulgação Congregação das Irmãs Servas de Maria Imaculada

No coração desse cenário, o convento das Irmãs Servas de Maria Imaculada ergue-se de forma discreta atrás de um muro de concreto marcado pelos anos. Não é uma construção que busca impor-se pela altura, mas pela extensão. O terreno ocupa praticamente toda a quadra central da paróquia, uma vastidão de 43.616 metros quadrados — o equivalente a quase seis campos de futebol.

É um quarteirão completo de silêncio, delimitado pelas ruas Engenheiro Saporski, Dr. Ferreira Correia, Desembargador Ermelino de Leão e Cândido de Abreu. Do lado de fora, vê-se apenas uma casa térrea de paredes amarelo-suave e janelas protegidas por grades. Por dentro, o terreno prolonga-se em um verde profundo de árvores frondosas e arbustos densos, criando uma zona de sombra onde o ruído da cidade não tem autorização para entrar.

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| Foto: Google Maps

As irmãs são figuras intrínsecas à memória de Ivaí, guardiãs de um carisma fundado em 1892 na Ucrânia. Entre elas vivia a Irmã Nádia Gavanski. Aos 82 anos, ela carregava a disciplina de quem professou votos há mais de meio século.

Foi nesse refúgio de catequese e oração que a violência atravessou o limite físico do concreto.

O sol da tarde de sábado não anunciava tragédia; a luz caía limpa sobre o telhado de barro, e o jardim refletia um verde intenso enquanto jovens participavam de um encontro da Pastoral Vocacional em outra ala do terreno.

Irmã Nádia Gavanski
Irmã Nádia Gavanski | Foto: Divulgação Congregação das Irmãs Servas de Maria Imaculada

Segundo a reconstrução dos fatos pela Polícia Civil, o equilíbrio daquele espaço foi rompido às 13h30. Um homem de 33 anos pulou o muro lateral, longe da grade branca visível da rua. Irmã Nádia seguia seu trajeto habitual após o almoço para alimentar as galinhas, um gesto de cuidado repetido há décadas. De acordo com o depoimento do suspeito, ele a abordou com uma mentira, dizendo que trabalharia na propriedade. Diante da desconfiança da religiosa, o confronto tornou-se físico.

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| Foto: Divulgação Congregação das Irmãs Servas de Maria Imaculada

O agressor relatou no interrogatório que a empurrou e, após a queda e a tentativa de reação da idosa, provocou a asfixia.

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| Foto: Divulgação PMPR

Após o crime, o homem caminhou em direção ao grupo de jovens, tentando simular que apenas "encontrara" a freira caída. No entanto, uma fotógrafa que registrava o evento percebeu o que o texto policial mais tarde confirmaria: a fissura na narrativa. O nervosismo, as manchas de sangue nas roupas e os arranhões no pescoço denunciaram o intruso. Graças ao registro fotográfico feito por ela, a Polícia Militar pôde localizá-lo em sua residência pouco tempo depois.

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| Foto: Divulgação PMPR

O relatório policial detalha que a vítima foi encontrada com vestimentas parcialmente retiradas, detalhe que mantém aberta a investigação pericial sobre possível violência sexual, apesar da negativa do autor. Em interrogatório oficial, o homem confessou ter passado a madrugada em um surto de crack e álcool, movido por "vozes" que ordenavam uma morte.

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| Foto: Divulgação PMPR

A confirmação do óbito transformou o jardim em cena de investigação. Horas depois, a nota de falecimento publicada pela Congregação trazia o nome de Irmã Nádia Gavanski com as datas que agora encerravam sua trajetória: 1943-2026. A repercussão do "ato de violência injustificável", como classificou a superiora provincial, uniu a comunidade em ritos de tradição milenar como a Panakhyda.

No domingo, Prudentópolis, onde a freira foi sepultada, parou para a despedida.

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| Foto: Divulgação Congregação das Irmãs Servas de Maria Imaculada

Entre cânticos em ucraniano e o toque dos sinos, a expressão “Вічна їй пам’ять!” (Memória Eterna) tentava dar sentido ao incompreensível. Em Ivaí, o sol não escureceu, mas dentro dos 856 metros de perímetro daquele quarteirão, o silêncio nunca mais será o mesmo. O que resta é a perplexidade de uma cidade que aprendeu que a sombra pode atravessar até os muros mais sagrados.

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