Morte de feminista turca concentra debates sobre os direitos das mulheres
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quinta-feira, 03 de fevereiro de 2000
Por Selcan Hacaoglu, da AP 
Ancara (AE-AP) - Mesmo na morte, Konca Kuris teve seu último pedido negado: a permissão para que as mulheres façam suas orações ao lado dos homens. Foi um desejo que custou a vida à feminista religiosa, que foi morta por radicais islâmicos.
A polícia retirou o corpo nu de Kuris de um porão de um esconderijo usado por militantes islâmicos que gravaram em fitas de vídeo as semanas de abuso que infligiram a ela antes de sufocá-la. Os corpos de dezenas de vítimas masculinas também foram encontrados e um segundo corpo de mulher foi descoberto na sexta-feira.
Os assassinatos aterrorizaram os país, mas a morte Kuris também chamou a atenção para o papel da mulher no Islã, uma questão que foi enfatizada quando os parentes homens no seu funeral, ocorrido na semana passada, recusaram-se a permitir que sua filha mais velha rezasse ao lado se seu caixão.
"Quem são os verdadeiros muçulmanos, aqueles que mataram Konca ou aqueles que vão à mesquita juntos, homens e mulheres?"
pergunta Necati Dogru, colunista do jornal Sabah.
"Mais uma pessoa pagou com sua vida por ser diferente e expressar sua própria voz", escreveu a comentarista Sibel Eraslan no jornal islâmico Akit.
Mas na principal mesquita Kocatepe de Ancara, a fiel Nese Ince falou contra a veia feminista islâmica de Kuris. "Eu não quero que o Islã no qual eu acredito há anos mude", disse ela.
Kuris, inicialmente, era membro do grupo militante Hezbollah, que busca estabelecer um estado islâmico no sudeste da Turquia e o qual não está relacionado com a milícia libanesa do mesmo nome.
Ela viajou para o Irã com uma delegação da organização mas gradualmente tornou-se desiludida com a atitude do grupo em relação às mulheres.
Ela reclamava o direito de fazer suas orações ao lado dos homens e que as rezas fossem feitas em idioma turco em vez do tradicional árabe, língua que poucos turcos compreendem. Embora Kuris usasse um tradicional lenço de cabeça islâmico, ela afirmava que esse tipo de adorno ou as vestimentas completamente negras usadas por algumas mulheres eram opcionais e não eram exigidas no Islã.
A visão feminista de Kuris enfureceram o Hezbollah, que é dominado pelos tradicionais curdos da região rural.
No início de 1998, ela começou a receber telefonemas anônimos. "Você está inventando uma nova religião?", perguntou uma voz, de acordo com o jornal Milliyet.
Em julho daquele ano, três militantes sequestraram Kuris da frente de sua casa, no porto de Mersin, sul do país, e ela nunca mais foi vista novamente.
As fitas com o interrogatório de Kuris foram descobertas há cerca de duas semanas durante uma missão policial à fortaleza do Hezbollah em Istambul, informou o Sabah. O jornal disse que as fitas tinham imagens de militantes enfiando a fotografia de Mustafa Kemal Ataturk, o fundador do estado turco sem ligações com a religião, em sua boca.
O diário também afirma que os militantes acusaram Kuris de querer tornar-se um Salman Rushdie ou Taslima Nasrin, muçulmanos não ligados a nenhuma ordem religiosa e considerados heréticos pelos radicais muçulmanos.
Kuris foi aparentemente sufocada com um travesseiro ou peça de roupa no porão de uma casa na cidade de Konya, região central de Anatólia. Em sua morte ela também foi mantida distante de seu objetivo de igualdade. Seu corpo foi enterrado num canto diferente do porão daquele em que os homens foram colocados.
Em seu funeral, as disputas sobre seus pontos de vista irromperam com força.
"Eu vou realizar o último desejo de minha mãe", gritou a filha mais velha de Kuris, Sirma. Mas os homens impediram que ela chegasse até a parte masculina da mesquita.
As mesquistas são divididas em suas seções, por sexo, com a área reservada ás mulheres geralmente nos fundos. Outra parente mulher, Necla Olcer, finalmente empurrou os homens para o lado e ficou em pé próxima ao caixão enquanto o pregador islâmico rapidamente leu as orações e apressadamente encerrou o funeral.


