Buenos Aires, 23 (AE) - A morte do vice-presidente paraguaio Luis María Argaña teve um profundo impacto em Buenos Aires. Os canais de TV retransmitiram ao vivo os acontecimentos desde Assunção, a capital paraguaia.
Na Argentina existe grande interesse pelos acontecimentos no Paraguai: o país é um sócio do Mercosul, mas também aqui está instalada a maior comunidade paraguaia no exterior, com mais de 700 mil pessoas.
O principal "think tank" da Argentina, Rosendo Fraga, destacou à Agência Estado a importância do Paraguai. "Esse país é somente 2% do Mercosul em termos econômicos e populacionais. No entanto, é 25% em termos políticos, porque é um estado soberano como Brasil, Argentina e Uruguai."
Por esse motivo, afirma Fraga, "a instabilidade política que o Paraguai passa hoje projeta-se inevitavelmente sobre o resto dos países da região". Segundo ele, é difícil de prever a evolução da situação política do Paraguai no atual momento.
Fraga considera que os setores vinculados ao general Lino César Oviedo serão acusados de ter realizado o assassinato do vice-presidente Argaña, que vivia em permanente conflito com os partidários do ex-general golpista e o presidente Raúl Cubas Grau.
O analista argentino disse à AE que o Paraguai enfrentará um momento muito complexo, "mas, em minha opinião, Cubas Grau se manterá no poder e não haverá uma ruptura da precária ordem estabelecida". Fraga também explicou que a luta política não envolve a oposição. Segundo ele, ocorre dentro do Partido Colorado, que governa o Paraguai há mais de meio século.
Outro especialista argentino em geopolítica, Oscar Raúl Cardoso, disse à AE que "a morte de Argaña evidencia que é uma falácia a idéia de que toda a América Latina é democrática, com exceção de Cuba. Na verdade, o que subsistem são formas de autoritarismo, com um verniz de democracia".
Cardoso sustenta que o Paraguai "não consegue resolver as estruturas feudais e modernas de uma forma pacífica". Segundo ele, "o Paraguai está atravessando um processo inevitável de modernização compulsiva, como o resto da América Latina. No entanto, há estruturas de poder que resistem a isso".
Fazendo uma análise de como o poder militar está intimamente vinculado com o poder econômico, com ironia, Cardoso disse: "Pergunto a mim mesmo se um general paraguaio poderá se virar sozinho com seu salário, sem os subornos do contrabando ou sem suas cotas da economia do país... o mais provável é que este general morra de fome."
Cardoso considera que "o poder ainda está nas forças armadas, e este será o âmbito onde a crise política será resolvida".
Analisando as implicações do assassinato, Cardso considera que a morte de Argaña "é um magnicídio. Acho que tem a mesma gravidade de um golpe de estado, como já ocorreu através do general Lino Oviedo, quando fez que o então presidente Juan Carlos Wasmosy fosse se refugiar em uma embaixada estrangeira". O analista afirmou que "na realidade, a acusação a Cuba de ser o único país não-democrático é meio fraquinha. Não acho que o Paraguai hoje seja mais democrático que a terra de Fidel Castro".

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