Marta Medeiros
Enviada a Astorga
Especial para a Folha
A morte de crianças menores de um ano de idade em Astorga (40 km ao norte de Maringá) está levando o município a rever suas ações na área da saúde. Entre 1997 e 1998, o índice de mortalidade infantil saltou de 12,20% para 18,67% e deve crescer ainda mais em 1999. Este ano já ocorreram oito mortes de bebês. O índice é considerado um péssimo indicador da saúde no município, que vive uma situação atípica por causa de uma parcela da população que se ausenta da cidade em pelo menos seis meses do ano.
É desta população formada por bóias-frias que vem a maioria dos problemas e o grande desafio do município. Eles vivem entre os três distritos de Astorga, Santa Zélia, Tupinambá e Içara e como não encontram serviço na região, seguem em massa aos estados de São Paulo e Minas Gerais para a colheita nas lavouras de café. Entre abril e setembro, os postos de saúde de Astorga quase não registram movimento.
Segundo o secretário municipal de Saúde, Emerson Silva, a situação se complica a partir de setembro quando o volume de atendimento é altíssimo, causando inclusive acúmulo de exames. ‘‘Nossos programas de apoio materno-infantil perdem o controle porque as gestantes e as crianças vão embora do município e quando voltam estão com as carteiras de atendimento pré-natal e vacinação muito atrasadas’’, conta o secretário. Há muitos casos de gestantes que acabam ganhando seus filhos nos próprios municípios onde estão a trabalho com a família.
Silva disse que os bóias-frias contam para os funcionários dos postos que as condições de higiene nos acampamentos ou barracos das fazendas cafeeiras são péssimas. ‘‘Eles falam que em alguns locais não existem nem privadas’’, afirma o secretário de Saúde. Por causa desta situação, muitos voltam doentes e quem mais sofre são as crianças, mulheres grávidas e os trabalhadores idosos.
Ele ressalta porém, que o aumento no índice de mortalidade infantil também se deve, este ano, na coincidência de três casos acidentais em que bebês morreram por afogamento de leite. Segundo Silva, para ampliar o contato e a informação entre os bóias-frias, agentes de saúde de Astorga intensificaram as visitas, principalmente nos distritos.
Conforme o secretário, o município também desenvolvem ações alternativas como a redistribuição das equipes de agentes de saúde. ‘‘Agora estamos em parceria com a Pastoral da Criança. Antes, não trabalhávamos em conjunto e acontecia das equipes da pastoral estarem nos mesmos locais do pessoal do município. Agora, redistribuímos e estamos conseguindo aumentar a abrangência do atendimento’’, esclarece Silva. Reuniões mensais com gestantes e distribuição de leite, também são, segundo o secretário, algumas das ações desenvolvidas em Astorga.
Para a médica da 15ª Regional da Saúde, Norico Miyagui Misuta, chefe da seção de Epidemiologia, o programa de agentes de saúde comunitários que promove visita domicialiares na população carente se mostra eficaz no combate à desinformação e no atendimento à saúde. Em Lobato (60 km ao norte de Maringá), desde de 1995 não há registro de morte infantil. ‘‘O município desenvolve o programa de agentes comunitários e consegue atingir resultados positivos’’, ressalta Norico. Ela explica, porém, que em municípios de população reduzida, a morte de uma criança pode saltar o índice de mortalidade, mas sem necessariamente representar uma situação crítica.
De acordo com dados da 15ª Regional, o município de Maringá registrou queda no índice de mortalidade infantil. Em 1997, eram 159 mortes para cada grupo de mil nascidos vivos e em 1998, o número baixou para 132. Norico acredita que a melhoria na qualidade de vida e no atendimento da saúde são responsáveis pela redução nas estatísticas.
Para se ter uma idéia, há menos de 4 anos eram 216 mortes para cada grupo de mil. Bem diferente da realidade do início da década de 80, quando mais de 400 crianças em um grupo de mil nascidas vivas, morriam antes de completar um ano de idade.Mortes de crianças revelam triste indicador da saúde no município que tem dificuldades em controlar população de bóias-frias
James NegriniJames NegriniDESOLAÇÃOParte da família da bóia-fria Maria Tereza Joaquim sai todos os anos a procura de emprego no interior de São Paulo; ao lado, espaço reservado para os ‘‘anjinhos’’ no Cemitério de Astorga

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