São Paulo, 10 (AE) - Ele foi um dos escritores mais lidos em todo o mundo, um fenômeno de vendas que chegou ao cinema. Morris West, o autor de O Advogado do Diabo, As Sandálias do Pescador e mais 25 livros, além de peças de teatro e programas de rádio, morreu ontem (09) em sua casa, em Sidney, aos 83 anos. O anúncio foi feito por seu filho, Chris OHanlon. Ele acrescentou que o pai morreu pacificamente, de ataque cardíaco, "na metade de uma frase", enquanto trabalhava em seu último livro, o agora inacabado A Última Confissão.
Foram 27 livros, no total, traduzidos para 27 idiomas e tendo vendido mais de 60 milhões de exemplares que transformaram West num homem rico. Mas ele gostava de dizer que sua maior riqueza eram a segunda mulher, que se chamava Joy (Felicidade), e os seis filhos. Nasceu em Melbourne, na Austrália, em 1916. Foi o primeiro de seis irmãos. O pai era caixeiro-viajante, a mãe, uma irlandesa católica. West cresceu em Melbourne e completou a educação num seminário, mas não chegou a se ordenar padre. Vem daí, do ambiente católico em que fez sua formação, a atração por um dos temas que mais o atraíam: os bastidores do Vaticano.
Em 1990, quando publicou Lázaro, ele disse que seria sua última obra sobre a Igreja, fechando a trilogia que começou com As Sandálias do Pescador e teve prosseguimento com Os Filhotes de Deus. O primeiro valeu a West a fama de profeta, que ele confirmou depois em outros livros. Numa época em que isso parecia improvável, senão impossível, West foi o primeiro a imaginar a eleição de um papa surgido no mundo comunista. Criou o papa Kiril I, interpretado no cinema por Anthony Quinn. Seguiu profetizando nas obras seguintes: O Embaixador antecipou o envolvimento americano na Guerra do Vietnã, Torre de Babel falava da guerra árabe-isralense antes que ela tivesse ocorrido e Proteu mostra o mundo em perigo de destruição por causa da guerra psicológica.
Nome frequente nas listas de best sellers, West começou na literatura nos anos 50. Disposto a tornar-se escritor, abandonou todas as suas atividades para se concentrar nos livros. Gostava de dizer que passou dificuldade, até fome, antes de virar um dos autores mais populares do século. Sua biografia inclui uma passagem pela 2.ª Guerra, no front do Pacífico. A guerra não lhe deve ter sido muito dura, pois foi durante ela que escreveu seu primeiro livro: Com a Lua no Bolso.
Jornalista, deixou a Austrália para ser correspondente no Vaticano e foi penetrando na intimidade do papado que lhe veio a inspiração definitiva para escrever seus romances sobre os bastidores da Igreja. Entre os autores de best sellers, era considerado um dos mais eficientes. Um hábil contador de histórias, que aliava a essa característica uma visão lúcida do homem contemporâneo e da evolução do mundo. Gostava de ler os grandes livros religiosos: a Bíblia, o Alcorão, os pensamentos de Confúcio. "São leituras que nos obrigam a pensar, coisa que essa nossa civilização consumista e materialista parece não querer fazer mais."
Muitas vezes, a vida explica a arte. O Advogado de Deus, seu primeiro best seller, trata da condição do homem diante de Deus e surgiu quando ele atravessava uma fase extremamente depressiva
lutando contra o suicídio. Lázaro retoma o personagem bíblico porque o próprio West sentia como se tivesse ressurgido dos mortos. Quando foi fazer um cardiograma rotineiro, descobriu que estava à beira de um ataque cardíaco. Teve de operar-se às pressas. Quando despertou da cirurgia, sentiu-se muito frágil e deprimido, mas lúcido. Lázaro partiu daí, do renascimento do autor, para abodar as correntes internas do Vaticano, a ideologia terrorista e o perigo do fanatismo.
Embora alguns de seus livros mais populares tenham tratado dos bastidores do Vaticano, nunca sofreu nenhum tipo de restrição, nem a Santa Sé tentou exercer algum tipo de censura ou pressão contra seus escritos. Ele sabia, por ouvir dizer, que o atual papa era um de seus leitores. Orgulhava-se disso. Embora vários de seus livros tenham virado filmes, o mais conhecido é As Sandálias do Pescador, que Michael Anderson realizou para a empresa Metro nos anos 60.
O filme é interpretado por Anthony Quinn, à frente de um elenco em que também se destacam Laurence Olivier e Oskar Werner. Mostra como um cardeal que veio do Leste Europeu, no tempo em que ainda havia União Soviética, resolve aproximar a China do Ocidente. Sob a influência de um amigo, o padre interpretado por Oskar Werner (e inspirado no teólogo Teilhard de Chardin) chega ao extremo de sacrificar as riquezas da Igreja para erradicar a miséria do mundo. Era uma fantasia: nenhum papa jamais pensou nisso, mas o livro vendeu como água e o filme também foi um expressivo sucesso de público.

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