Morreu José Paulo Paes, poeta, tradutor e ensaísta
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sexta-feira, 09 de outubro de 1998
Antônio Gonçalves Filho Agência Estado 
Morreu ontem, às 9h05, no Hospital Beneficência Portuguesa, em São Paulo, o poeta e tradutor José Paulo Paes, de 72 anos. Ele teve um edema pulmonar agudo. Seu corpo está sendo velado no hospital e deverá seguir hoje, às 9 horas, para o Crematório da Vila Alpina.
Paes, que foi indicado este ano para o Prêmio Multicultural Estadão, era um dos mais refinados intelectuais do País, tradutor respeitado de Seféris e autor de quase 30 livros de poesia. Comemorou há um ano seus 50 anos de atividade poética lançando o livro Os Perigos da Poesia e Outros Ensaios (Editora Topbooks).
Colaborador habitual do Grupo Estado, Paes nasceu em Taquaritinga, em 1926. Estudou química industrial em Curitiba, onde publicou seu primeiro livro, O Aluno, em 1947. Esse livro de estréia foi profundamente marcado pela influência da sintaxe drummondiana. Numa carta enviada ao colega, Drummond aconselhou-o a ler poetas de outras línguas para se livrar da dicção poética de seus próximos, conselho que Paes aceitou, tornando-se o grande divulgador da obra de poetas como Ungaretti.
Autodidata, aprendeu grego moderno por intermédio de um curso de Linguaphone para produzir uma antologia de poesia grega que lhe custou três anos de trabalho e lançar uma versão definitiva dos poemas de Kaváfis.
Casado com a professora de dança Dora, a quem dedicou poemas em seu segundo livro, Cúmplices (1951), José Paulo Paes morava em Santo Amaro numa casa frequentada pelos maiores intelectuais de São Paulo. Sempre de bom humor, Paes jamais deu sinais de desânimo, mesmo quando teve, há 13 anos sua perna esquerda amputada. Tanto que o drama é tratado sem tristeza no livro Odes Mínimas (o poema chama-se Ode à Minha Perna Esquerda).
O poeta e ensaísta também dedicou alguns de seus livros às crianças, entre eles um de poemas chamado O Passarinho Me Contou. Como um corsário, assustou os amigos intelectuais ao declarar há dois anos que a perda dos garotos do grupo Mamonas Assassinas era irreparável, o último sinal de vida inteligente no rock brasileiro. Paes reconhecia na cultura de entretenimento dos Mamonas uma vocação satírica para criticar a uniformização da sociedade de consumo.
Segundo seu amigo, o também poeta João Moura, Paes, apesar de ter estreado como poeta em 1947, não pode ser incluído na chamada Geração de 45. Sua poesia não tem, desde o começo, nem o bom-mocismo típico de metade dos representantes desses grupo nem o panfletarismo político típico da outra.


