Morre Zé Kéti
PUBLICAÇÃO
domingo, 14 de novembro de 1999
Por Mônica Ciarelli e Robrta Jansen 
Rio, 14 (AE) - O cantor e compositor José Flores de Jesus, o Zé Kéti, morreu hoje de manhã de parada cardíaca no Hospital Ordem Terceira da Penitência, na Tijuca, zona norte do Rio. O cantor de 78 anos estava internado desde o dia 25 de outubro em consequência de complicações renais e pulmonares.O corpo de Zé Kéti está sendo velado na capela Santa Cassia do Cemitério de Inhaúma e deve ser enterrado no final da tarde.
O sambista encarnava a figura do típico malandro carioca e consagrou-se em 1966 com a marchinha de carnaval Máscara Negra. Seu repertório inclui grandes sucessos como A voz do Morro e Diz que eu fui por aí. Esta última é a música predileta de sua filha
Geisa Flores. "Acho que a letra diz muito da alma de meu pai", disse, emocionada.
Na década de 60, o sambista participou do lendário show Opinião, dirigido pelo dramaturgo Augusto Boal, ao lado do compositor João do Valle e das cantoras Nara Leão e Maria Bethânia. Sua música Opinião, com versos como "podem me bater, podem me prender, mas eu não mudo de opinião", foi um dos maiores sucessos do espetáculo.
O compositor Luis Carlos Miele lembrou hoje que o sambista costumava dizer que, depois do sucesso do Opinião, fora esquecido pela mídia e parara de receber convites para festas da sociedade. "Na época, era politicamente correto ter um sambista em uma festa", disse Miele. "Ele dizia que não havia feito nada para entrar nessa roda e também nada para sair dela." Miele ressaltou a capacidade criadora de Zé Keti, ao lembrar de um outro episódio ocorrido na década de 60 - época em que ele e Ronaldo Bôscoli produziam o quadro Noite de Gala, na TV Excelsior. Os dois estavam montando um número musical cujo tema era a favela, mas ainda precisavam de músicas. "Chamamos o Zé Kéti e, no dia seguinte, ele apareceu com Acenderam as Velas, que é uma música belíssima", contou.
Pai de seis filhos, Zé Kéti morava há seis anos com sua filha Geisa em Inhaúma. Nos últimos anos, a saúde debilitada do cantor dificultava as saídas de casa. Ele tinha hidrocefalia decorrente de um derrame e problemas nos rins. Em setembro do ano passado, o cantor sofreu um princípio de derrame quando visitava um de seus filhos em São Paulo e foi internado na Clínica Santa Isabel.
Parentes contaram que ele vinha sofrendo de depressão desde a morte de sua mulher, Índia, há três meses. Mesmo separados, o casal ainda era muito amigo. Zé Kéti foi internado no final de outubro com desidratação, mas o quadro se agravou quando contraiu pneumonia. "Ele amava a vida", afirmou sua filha. Geisa lembra do pai como um eterno rebelde, que não queria se entregar. "Muitas vezes era preciso mantê-lo dopado porque ele queria arrancar os tubos e levantar", lembrou.
No feriado de finados, o cantor recebeu, no hospital, a visita dos sambistas Elton Medeiros e Paulinho da Viola. Sua filha conta que o cantor ficou muito emocionado com a visita e chorou ao lembrar de seus grandes sucessos e parceiros.
"Estou muito chocado com a morte dele", afirmou hoje Paulinho da Viola. "Era um dos maiores de todos os tempos." Paulinho da Viola lembrou que começou no samba pelas mãos de Zé Kéti. "Eu não dava muita importância à composição, mas ele sempre me estimulava a compor", contou. "Ele costumava me chamar de pupilo e era assim que eu me considerava." Paulinho lembrou ainda das particularidades das músicas de Zé Kéti. "Se ouvisse uma música desconhecida, saberia dizer se é dele", disse. "Ele tinha um jeito tão dele de fazer samba que é impossível traduzir em palavras." Para Paulinho, seu colega não teve o devido reconhecimento da crítica especializada.
Outro que se sente devedor em relação a Zé Kéti é o também sambista Noca da Portela. "Foi ele que me descobriu e me levou para gravar com o grupo A Voz do Morro", lembrou. A Escola de Samba Boêmios do Inhaúma, do terceiro grupo, vai homenagear Zé Kéti no carnaval do ano 2000 com o enredo Os Bambas de Inhaúma, em referência ao cantor e a Pixinguinha.


