Morre o sertanista Orlando Villas Bôas
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sexta-feira, 13 de dezembro de 2002
Katia Michelle<br> Equipe da Folha 
Curitiba - Morreu ontem, às 14h27, no Hospital Albert Einstein, em São Paulo, o indigenista Orlando Villas Bôas. Ele estava internado desde o dia 14, na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do hospital e não resistiu a um processo de infecção intestinal que desencadeou a falência múltipla de órgãos. Villas Bôas estava com 86 anos e foi um dos mais importantes estudiosos da cultura indígena do País. Junto com os irmãos Cláudio, Leonardo e Álvaro, que já morreram, liderou a expedição Roncador-Xingu nas décadas de 40 e 50. Com o irmão Cláudio, foi indicado ao Prêmio Nobel da Paz em 1976, pelo resgate das tribos xinguanas.
O indigenista havia gravado, em abril deste ano, um depoimento para o evento ''Paraná Indígena na Memória da Terra'', da Secretaria de Estado da Cultura, que aconteceu em maio. No vídeo, ele ressalta as qualidades do tratamento destinado ao índios no Paraná. ''Ele costumava dizer, e ressaltou isso no depoimento, que numa aldeia o velho é o dono da história, o homem é o dono da aldeia e a criança é a dona do mundo'', conta o assessor especial de assuntos indígenas do governo do Estado, Edívio Battistelli, que acompanhou as gravações.
Foram 30 minutos de conversa gravada que resultaram no depoimento que faz parte do acervo da Secretaria da Cultura. Também foram feitas algumas fotografias, que passam a integrar o acervo. ''Na ocasião das gravações, já dava para perceber que a saúde dele não estava boa. Nós sentimos que ia ser a última oportunidade de falar com ele'', diz Battistelli que convivia há 25 anos com Villas Bôas.
''É inquestionável a importância que ele teve para as comunidades indígenas'', observa Battistelli. A expedição Roncador-Xingu, uma de suas maiores proezas, serviu para encurtar os caminhos da região amazônica, mas principalmente para contatar povos indígenas até então desconhecidos. Os irmãos Orlando, Cláudio, Leonardo e Álvaro Villas Bôas mapearam seus encontros com as 14 tribos indígenas com quem estabeleceram contato. O diferencial das expedições era o respeito ao território indígena, fundamental para as informações obtidas.
Orlando nasceu em janeiro de 1914, numa fazenda de café no interior de São Paulo. Deixou os estudos antes de completar o segundo grau para sustentar os oito irmãos. Depois de se envolver com os povos indígenas, escreveu dezenas de livros, alguns em co-autoria com seus irmãos, e inúmeros artigos para jornais e revistas, como a National Geographic Magazine.


