Morre o sambista Zé Ketti
Agência Estado
Do Rio
O cantor e compositor José Flores de Jesus, o Zé Ketti, morreu ontem de manhã no Hospital Ordem Terceira da Penitência, na Tijuca, no Rio. O cantor de 78 anos estava internado desde o dia 25 de outubro em consequência de complicações renais e pulmonares.
O sambista encarnava a figura do típico malandro carioca e consagrou-se em 1966 com a marchinha de carnaval Máscara Negra. Seu repertório inclui grandes sucessos como A voz do Morro e Diz que eu fui por aí.
José Flores de Jesus nasceu no Rio de Janeiro, em Inhaúma, em 6 de outubro de 1921. Como era muito quieto ganhou o apelido de Zé Quieto, ou Zé Quietinho, que mais tarde se tornaria Zé Ketti. Na década de 60, participou do lendário show Opinião, dirigido pelo dramaturgo Augusto Boal, ao lado do compositor João do Valle e das cantoras Nara Leão e Maria Bethânia. Sua música Opinião, com versos como podem me bater, podem me prender, mas eu não mudo de opinião, foi um dos maiores sucessos do espetáculo.
O compositor Miele lembrou que o sambista costumava dizer que, depois do sucesso do Opinião, fora esquecido pela mídia e parara de receber convites para festas da sociedade. Na época, era politicamente correto ter um sambista em uma festa, disse Miele. Miele ressaltou a capacidade criadora de Zé Ketti, ao lembrar de um outro episódio ocorrido na década de 60 época em que ele e Ronaldo Bôscoli produziam o quadro Noite de Gala, na TV Excelsior. Os dois estavam montando um número musical sobre favela. Chamamos o Zé Ketti e, no dia seguinte, ele apareceu com Acenderam as Velas, contou. Zé Ketti teve seis filhos. Ele tinha hidrocefalia decorrente de um derrame e problemas nos rins.
Ele vinha sofrendo de depressão desde a morte de sua mulher, Índia, há três meses. Mesmo separados, o casal ainda era muito amigo. Zé Ketti foi internado no final de outubro com desidratação, mas o quadro se agravou quando contraiu pneumonia.
No feriado de finados, o cantor recebeu, no hospital, a visita dos sambistas Elton Medeiros e Paulinho da Viola. O cantor ficou muito emocionado chorou ao lembrar de seus grandes sucessos e parceiros.
Estou muito chocado com a morte dele, afirmou ontem Paulinho da Viola. Era um dos maiores de todos os tempos. Paulinho da Viola lembrou que começou no samba pelas mãos de Zé Ketti. Eu não dava muita importância à composição, mas ele sempre me estimulava a compor, contou. Paulinho lembrou ainda das particularidades das músicas de Zé Ketti. Ele tinha um jeito tão dele de fazer samba que é impossível traduzir em palavras. Para Paulinho, seu colega não teve o devido reconhecimento da crítica especializada.
Outro que se sente devedor em relação a Zé Ketti é o também sambista Noca da Portela. Foi ele que me descobriu e me levou para gravar com o grupo A Voz do Morro, lembrou. A Escola de Samba Boêmios do Inhaúma, do terceiro grupo, vai homenagear Zé Ketti no carnaval do ano 2000 com o enredo Os Bambas de Inhaúma, em referência ao cantor e a Pixinguinha.





