São Paulo, 3 (AE) - "Ademir Fernandes não é um jornalista, é uma equipe." A definição, perfeita, foi dada muitas vezes pelos amigos e colegas que trabalharam com ele. Ademir Fernandes - que morreu hoje pela manhã, de câncer, aos 54 anos, em Jundiaí -, editor de Reportagens Especiais da Agência Estado, era, em tudo o que fazia, a um só tempo e em período integral, pauteiro, repórter, chefe de reportagem, copydesk e editor.O corpo está no Velório Municipal de Jundiaí (Centro) e o enterro será às 9 horas de amanhã (4), no Cemitério Parque dos Ipês.
Ademir era também um fundador de jornais - participou da criação do "Jornal da Cidade", "Registro", "Jornal de 2ª" e "Jundiaí Hoje" -, um formador de equipes e um incansável colecionador de gafes jornalísticas. O material que recolheu neste último item seria suficiente para formar um museu.
Mineiro de Uberaba, fez toda a carreira no jornalismo - iniciada em 1967 - com um pé em Jundiaí, sua cidade de adoção - e outro em São Paulo, onde começou no "Jornal da Tarde", em 1970, como copydesk. Ficou no JT até 1990, passando por praticamente todas as editorias. No início dos anos 70, como redator da editoria de Política, foi encarregado de editar a página de editoriais e do "São Paulo Pergunta", na época a única seção dedicada às cartas de leitores em São Paulo.
Passou a fazer parte de sua rotina sair da redação de madrugada levando dois ou três imensos envelopes com os originais das cartas mais recentes, que ele selecionaria e prepararia para publicação antes de voltar à redação. Nunca mais abandonou o hábito de trabalhar nos horários mais inusitados; às vezes permanecia na redação durante toda a madrugada, e saía às 7, 8 ou 9 da manhã - levando serviço para casa.
Ninguém era capaz de explicar como ele arranjava tempo, mas sempre trabalhou, ao mesmo tempo, na imprensa de Jundiaí - nos jornais que ajudou a fundar, alguns deles já desaparecidos, e no único da cidade que já existia quando começou na profissão, o "Jornal de Jundiaí". Em todos eles, fez o que sabia fazer melhor: de tudo.
Em 1990, foi convidado para participar da reestruturação da redação da Agência Estado, onde assumiu o cargo de editor de Reportagens Especiais. Ali acompanhou com gosto especial o esforço e o crescimento de jornais do interior e de capitais menores; dialogava com os editores, dava sugestões, sugeria pautas, caminhos, norte. "Quando puder, volto a trabalhar num cantinho em um desses jornais", costuma dizer. "Os desafios são grandes, mas não há nada melhor na vida do que vencê-los."
Não fumava e não bebia, coisa rara na profissão; seus únicos vícios eram o trabalho e o bom humor (fazia dois trocadilhos a cada frase). Enfrentou com eles o câncer detectado a partir do final de 1998. Ao sair do hospital depois da primeira cirurgia, brincou que os médicos o tinham virado ao avesso: "Entrei na sala de cirurgia como Ademir Fernandes e saí como Sednanref Rimeda..." Nos dias finais, ao relatar para um amigo como ia se adaptando para conviver com a dor e o incômodo crescentes, resumiu: "Morrendo e aprendendo". Trabalhou freneticamente na retrospectiva do século, até a última sexta-feira, dia 31.
Deixa a esposa, Rosa Bacci Fernandes, e os filhos Ellen (ela acaba de se formar em Jornalismo) e Elton (que acaba de passar no vestibular para o curso de Rádio e TV).