Rio, 24 (AE) - O ex-presidente da República João Baptista Figueiredo, que fechou o ciclo de governos militares no País (1979-1985), morreu na manhã de hoje em seu apartamento, no bairro de São Conrado, na zona sul do Rio. Figueiredo teria passado mal e seus familiares chegaram a chamar o médico que o assiste, Aloysio Salles. O ex-presidente, que completaria 82 anos em 15 de janeiro, sofria de problemas respiratórios, além de distúrbios renais, cardíacos e visuais. Até às 13 horas, a família do general Figueiredo não havia comunicado a causa de sua morte, ocorrida por volta das 9 horas.
A assessoria do presidente Fernando Henrique Cardoso informou hoje que ele não participaria nem do velório nem do enterro do ex-presidente Figueiredo, o que ficaria a cargo do comandante do Exército, Euber Vieira. O prédio em que morava o ex-presidente, no condomínio Praia Guinle, de frente para o mar, foi cercado na manhã de hoje por policiais militares, que se queixaram pelo fato de não serem recebidos pela família de Figueiredo. Até o início da tarde, a família ainda não havia decidido o local do velório nem onde o corpo do ex-presidente será enterrado.
Vizinho e amigo do ex-presidente, o presidente da Confederação do Comércio, Antonio Oliveira Santos, contou que nas últimas duas semanas Figueiredo já não andava e estava com a saúde precária. "Ele estava de cadeira de rodas", disse Santos. Segundo comentou, nos últimos seis meses o ex-presidente já não reconhecia as pessoas "mas mantinha uma boa memória para relembrar fatos antigos".
Santos disse que Figueiredo expressou seu desejo de escrever um livro sobre suas experiências no comando do governo e na sua passagem como chefe do então Serviço Nacional de Informacões (SNI), mas "não chegou a iniciar o projeto". O irmão do ex-presidente, general Diogo Figueiredo, soube da morte do ex-presidente pela imprensa. Às 11h45, disse que acabara de receber a notícia e não quis dar declarações, afirmando estar muito emocionado e não saber de detalhes sobre a morte do irmão. Amigos - Ex-ministro da Fazenda no governo Figueiredo, Ernani Galvêas disse que o general estava sofrendo havia muito tempo de problemas nos rins e insuficiência respiratória. Galveas lembrou que ele e outros antigos companheiros costumavam se encontrar para almoços no aniversário do ex-presidente. O último almoço aconteceu em julho, pouco antes de seu estado de saúde se agravar, contou Galvêas.
"Sinto muito a morte dele, o general sempre foi um grande amigo", disse. "Ele fez um governo correto, com uma equipe coesa", afirmou Galvêas, acrescentando que Figueiredo "foi o autor da abertura política, instituiu um projeto de lei de eleições diretas e ficará na História de forma positiva".
Antigo chefe da Secretaria Geral do Ministério do Exército no governo Figueiredo, o general Otavio Costa disse que conheceu o ex-presidente há 53 anos, quando ambos serviam na Academia Militar das Agulhas Negras (Aman), em Resende. Mas, segundo contou, ele viu Figueiredo "à distância" como chefe do Serviço Nacional de Informações (SNI) e presidente da República. "Não posso dizer que chegamos a ser amigos, nosso relacionamento sempre foi difícil, mas respeitoso e cordial", disse hoje.
"O general Figueiredo era um homem excepcionalmente inteligente e de grande caráter, de boa cultura, forte liderança militar, marcado por indisfarçável vaidade". Segundo Costa, Figueiredo tinha "temperamente imprevisível, algumas vezes explosivo, e caracterizado por só admitir amizades e adesões incondicionais".
Costa afirmou estar convencido de que Figueiredo foi a principal liderança do movimento militar de março de 1964, "pois foi o único a dele participar do princípio ao fim". "Como tenente-coronel, foi um dos principais articuladores, como general e presidente, foi um dos responsáveis pela abertura e a figura decisiva da anistia", afirmou. Disse ainda que Figueiredo foi um "homem público sincero e impetuoso, inábil e grosseiro, e nunca chegou a ser um bom político". "Por tudo isso, e apesar de seus inegáveis méritos, é improvável que a História venha reconhecê-lo como o presidente que gostaria de ter sido", concluiu. Brizola - O ex-governador Leonel Brizola, um dos primeiros exilados a voltar ao País depois da decretação de anistia concedida por Figueiredo, disse que guarda, "sob o ponto de vista pessoal, boas recordações do trato com ele, porque sempre me tratou com respeito enquanto eu era governador (do Estado do Rio) e ele presidente da República".

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